O Supremo Tribunal Federal conclui o exame das denúncias sobre o mensalão apresentadas contra 40 pessoas pelo procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza.

Ayrton Baptista

CURITIBA – O Supremo Tribunal Federal conclui o exame das denúncias sobre o mensalão apresentadas contra 40 pessoas pelo procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza. Um trabalho para ficar na história da Corte Suprema brasileira, que se acentuará com o julgamento propriamente dito de cada um dos possíveis envolvidos. Talvez demore bastante até o resultado final, o bastante para que muitos já não festejem ou condenem o ato, valendo isto para julgadores, leitores, advogados e comentaristas. Seis anos, tempo previsto, em determinadas circunstâncias é tempo demais. O importante, entretanto, é que as gerações presente e futuras observem o que está sendo feito, salvo melhor juízo, com os aplausos gerais dos brasileiros. Entre os envolvidos, figuras de destaque em um ou mais governos. Líderes, chefes, dirigentes e até um ex-presidente da Câmara Federal, João Paulo.

Em outro poder, na mesma praça, as agruras do líder do Poder Legislativo. Renan Calheiros, presidente do Congresso Nacional, não entrega os pontos. Vai até o final para provar que tinha capacidade financeira suficiente para sustentar outra família que não a original e que as transações com gado são legítimas e foram feitas com rigor fiscal. A receita está de olho, sem se pronunciar. A Polícia Federal fica quieta, mas a perícia não mente. Renan não é o primeiro chefe do Poder a estar sob suspeita. Espera-se, entretanto, que seja o último. A Ética é necessária e faz bem para todos nós, eleitores de todos os pleitos, que clamamos contra os maus políticos.

Enquanto isso, o chefe do terceiro poder navega tranqüilo, num mar de rosas de fazer inveja em antecessores. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva passeia seu prestígio, já não apenas no Nordeste por conta do Bolsa Família. Com seus pronunciamentos diários reafirmando sua opção preferencial pelos pobres, Lula cativa pela simpatia e pela facilidade de, entre uma gafe e outra, encaixar pensamentos que atingem o alvo diretamente na classe menos favorecida em todos os setores.

Hugo Borghi, deputado na década de 50 do século passado, sepultou a candidatura do brigadeiro Eduardo Gomes, da UDN, ao induzir ao português que lhe convinha uma observação do candidato presidencial contra Getúlio Vargas, do PSD e do PTB. “O voto do pobre vale tanto quanto ao do rico”. Ninguém havia contrariado essa verdade, muito menos o Brigadeiro. Mas, a marca ficou e Getúlio capitalizou, embora sua popularidade dispensasse aquela manobra.

Lula nem disso precisa. É só lembrar, em discurso, sua fase de retirante, de metalúrgico e de líder sindical. Fica na história e ao que tudo indica, mais tempo no poder. Talvez não assim de “carreirinha”, como dizia Lima Duarte, em um de seus brilhantes personagens em novela. Mas é bom ficar esperto. Seguramente, voltará. Como Getúlio voltou, como Juscelino quase. A história muitas vezes está escrita com antecedência. Nós é que não nos acostumamos a ler nas entrelinhas. E, às vezes, não lemos até de forma direta, aberta, descaradamente fácil de ler. É só prestar atenção. Sobretudo nos discursos do Presidente, sempre em companhia, como nunca na história deste País.

Ayrton Baptista, jornalista.