Origens do dia internacional da mulher

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A criação do Dia Internacional da Mulher teve como propósito enaltecer as conquistas femininas ao longo dos anos nos vários aspectos sociais, culturais étnicos, políticos, econômicos e religiosos, tendo recebido o reconhecimento da Organização das Nações Unidas no ano de 1977. Mas, suas origens retroagem ao início do século XX.

O movimento de matizes socialistas nascido em 1908 em Nova Iorque, assumiu uma dimensão global desde seus primeiros anos, após milhares de mulheres trabalhadoras da indústria têxtil, então em seus primórdios, entrarem em greve e marcharem pelas ruas da cidade para protestar contra as precárias condições de trabalho nas novas fábricas da revolução industrial.

Estes protestos foram se repetindo durante praticamente todo o ano de 1908, e, esta batalha por igualdade inspirou o Partido Socialista da América a celebrar, pela primeira vez na história, em 29 de fevereiro de 1909, o Dia Nacional da Mulher.

Inicialmente conhecido como o “Dia Internacional das Mulheres Trabalhadoras”, as raízes da mobilização foram inicialmente inspiradas pela ideologia socialista, antes de serem apropriadas pelos ideais do feminismo

Muito embora o dia nacional das mulheres trabalhadoras viesse sendo celebrado ao redor do mundo desde os primeiros anos do século XX, identificados com as agremiações socialistas em cada país, apenas em 18 de março de 1911 através da propositura formulada pela ativista comunista alemã Clara Zetkin é que foi criada a efeméride em âmbito internacional.

Um discurso apaixonado de Clara Zetkin na Conferência Internacional das Mulheres Trabalhadoras que teve lugar em março de 1910, consagrou o mês para a afirmação das conquistas femininas pela busca da igualdade de condições, trabalho digno, direito a voto, e outras que ainda hoje são relevantes para mulheres, especialmente em países em desenvolvimento nos quais o reconhecimento dos direitos civis ainda encontra barreiras.

As ideias de Zetkin se espalhavam pelo continente europeu e pela Ásia, em especial na Rússia, que já celebrava o Dia da Mulher desde 1913, não exatamente no mês de março, mas normalmente em maio, coincidindo com as mobilizações da esquerda em favor dos trabalhadores.

Muito embora o movimento feminino em seu surgimento fosse identificado com os ideais socialistas, as mulheres russas estavam passando por enorme sofrimento em razão de outras dificuldades decorrentes da exaustão e revolta com a escassez de alimentos num país castigado pela guerra, e onde as mulheres eram maioria avassaladora nas intermináveis filas para distribuição de mantimentos e comida.

A Primeira Grande Guerra foi o pano de fundo sobre o qual protestos no mudo ocorreram, motivados sobretudo pela fome, servindo como um catalisador da união das mulheres em torno de suas causas.

Segundo a historiadora e ativista Rochelle Ruthchild, do Davis Center for Russian and Eurasian Studies de Harvard, isso levou ao descolamento da pauta socialista e ao fortalecimento e identificação com o movimento feminista. E, um evento que marcou essa dissociação foi o fato de que as mulheres russas passaram a marchar em protesto no mês de março pela reivindicação dos próprios direitos.

A “ousadia” aborreceu algumas lideranças masculinas, entre elas, Leon Trotsky para quem essas mulheres “desobedientes e malcomportadas” deveriam esperar até primeiro de maio, data em que teriam lugar os protestos dos operários, e não marcharem por conta própria.

Desde o começo do século XX, portanto, mulheres do mundo todo se reúnem por reivindicações de equidade de gênero, contra a violência, por melhores condições de trabalho, para desafiar a discriminação no ambiente laboral, o assédio moral e sexual, e para reafirmar as conquistas já obtidas.

Por ocasião de seu discurso de posse perante o Senado, a saudosa Juíza da Suprema Corte dos EUA, Ruth Bader Ginsburg citou a frase da abolicionista considerada uma das mães do movimento em favor dos direitos das mulheres no século XIX, Sarah Moore Grimke, que define perfeitamente as dificuldades enfrentadas pelo sexo feminino: “(…) Mas não peço favores para meu sexo. Tudo que peço a nossos irmãos é que tirem os pés de cima de nossos pescoços e nos permitam ficar em pé.”

Ana Fábia R. de O. F. Martins – Advogada, Especializada em Direito e Negócios Internacionais e Moda.