O VIRUS ( A PRAGA) DO VINHO. A FYLOXERA.

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Como hoje a humanidade, nós, está vivendo momentos difíceis ao enfrentar  um virus que está ceifando milhares de vidas em proporções alarmantes, o corona virus, ainda sem vacina, trazemos para conhecimento de nossos leitores (as), a praga que devastou os vinhedos europeus e americanos  de 1863 a 1920, e chegou no Brasil por volta de 1893 a FILOXERA VITIFOLIAE ou VASTRATIX. Esta é a história do inseto que devastou o mundo do vinho por quase 40 anos ocasionando prejuízos enormes e que quase ficamos sem vinho no planeta. Uma praga de proporções bíblicas que quase levou as videiras de todo o planeta à extinção, fazendo com que os europeus arrancassem suas plantas pela raíz ocasionando um impacto no mundo vínico. Muitas vinícolas, além das perdas financeiras e gastos para a recuperação, ainda ficaram improdutivas por anos, causando a falência de muitos produtores. Até hoje é possível encontrar vinhedos abandonados dessa época espalhados por todo o continente. A praga da doença Filoxera-da-videira foi um dos mais desafiadores flagelos que se tem história no mundo vinico causado pelo pulgão amarelo Daktulosfaira Vitifoliae que se alimenta das raízes da videira causando a doença PHYLOXERA VASTRATIX, que ocasionou tal desastre no mundo vínico de então.

MAS COMO ACONTECEU TAL HECATOMBE NO MUNDO VÍNICO?

Originário da América do Norte, diversas pragas chegaram à Europa ocultas em coleções de plantas que eram trazidas do Novo Mundo com a difusão das castas americanas para centros de pesquisas. Inicialmente, tentou-se o cruzamento entre variedades européias e americanas para gerar fortes hibridos produtores diretos. Porém a baixa qualidade dos vinhos assim elaborados desistimulou essa rota. O inseto da doença FYLOXERA VASTRATIX, em especial é quase microscópico ( um pulgão do tamanho de uma cabeça de alfinete, medindo de 0,3 mm a 3mm de comprimento) e vivia camulflado nas raízes das plantas, praticamente imperceptíveis. Mas como chegou a Europa? Digamos que foi um dos malefícios do progresso, uma nau que navegava aos sabores dos ventos atravessava o Atlântico em três meses, vindo de Lisboa à Salvador, como foi a viagem de D. João VI muito bem descrita por Laurentino Gomes, paranaense, em sua obra prima histórica premiada, 1810, que recomendamos, parte da trilogia histórica também 1822, 1889 alcançando 03 milhões de livros vendido, um feito histórico para um paranaense, e agora lançou Escravidão, novo sucesso de vendas. Pois bem quando do descobrimento dos motores a vapor, tal travessia levava uma semana, encurtando a viagem incrivelmente e o tráfego entre o Novo e o Velho Mundo tornou-se intenso de cargas e passageiros e aí entram as pragas, pois com esta rapidez os navios atravessavam o Oceano Atlântico  sem que eles morressem juntos às plantas enviadas. Aí o estrago estava feito. O primeiro vinhedo a decretar a doença da Filoxera-de-videira, em 1863, se localizava no sul da Inglaterra. Em apenas poucos anos, é identificada na França, no Languedoc, Vale do Ródano(Rhone) e Bordeaux, coração do mundo vínico francês, reduzindo a produção dos grandes vinhos pela metade. Após essa primeira leva de contaminação, ano após ano a praga chega em um novo país: Turquia, Suiça, Itália, Portugal e Espanha. Para se ter idéia do poder de dispersão da praga, os insetos podem ser transportados de um vinhedo para outro por meio de qualquer material (como podas, mudas, rizomas, folhas e brotos), terra, maquinário (equipamentos e veículos), cachos de uvas, produtos vinícolas (mosto e suco de uva), até mesmo por pessoas e roupas. (Notaram a semelhança com o virus que enfrentamos agora, o Corona e sua propagação?). Por volta de 1878, quinze anos após o inÍcio da praga e após a perda de 40% das videiras na Europa, iniciavam-se os experimentos com enxertos de rizomas norte americanas em vinhas francesas. Como inseto causador da doença da filoxera era natural dessa parte do planeta, as vinhas indigenas americanas e semelhantes eram naturalmente resistentes a eles. Suas uvas, no entanto, davam vinhos com menor complexidade aromática e estrutura, diferentes da vitis vinifera (cabernet Sauvignon, Merlot, Malbec etc) e existia relutância dos viticultores europeus em produzir vinho a partir. QUAL A SOLUÇÃO USADA PARA ACABAR COM A PRAGA? A solução ideal veio com a descoberta da enxertia processo pelo qual uma gema ou uma estaca de um ou dois olhos, da variedade que se quer produzir, é inserida no porta-enxerto (ou cavalo) previamente plantado no ano anterior, após muita pesquisa e esforço, ao se encontrarem videiras americanas selvagens nas quais o inseto não causava danos de maior importância. Depois dessa fase, tornou-se impossível prosseguir com o cultivo da videira de pé-franco (enterrada diretamente no solo) na maioria das zonas vitícolas do mundo. Esse método só continua  sendo empregado em microregiões restritas onde as condições particulares de solo e clima impedem o desenvolvimento do inseto.Como exemplo dessas microregiões podemos citar as profundas areias de Colares (Portugal), as planícies semidesérticas irrigadas por inundações de Mendoza e San Juan na ARGENTINA, onde as escassas precipitações obrigam o uso de irrigação, realizada por uma complexa rede de canais, que distribuem a água dos degelos da Cordilheira dos Andes por rios de regime irregular que afogam os insetos. Aliás, os canais de irrigação já eram utilizados séculos atrás pelos indíginas. A maioria dos vinhedos é irrigada pelo sistema de inundação, por meio de canais, com as vinhas plantadas em pé franco. Últimamente, tem-se usado o gotejamento, o que obriga o emprego de porta-enxertos. Outro país vinícola privilegiado pela natureza ou as mão de Deus que produz vinhos de qualidade e preço é o CHILE, que recebeu grande quantidade de cepas francesas pré-filoxera em 1851 e que são plantadas de pé franco, isto é, sem uso de porta-enxertos, mas por que? O CHILE é o único paraíso vinícola do planeta, por cercar-se de um cordão fitossanitário: ao norte o Deserto do Atacama, ao sul as geleiras da Terra do Fogo, a Leste a Cordilheira dos Andes, a mais longa do planeta e ao Oeste o Oceano Pacífico e mais a presença de cobre no seu subsolo, que afasta o pulgão Phylloxera Vastratic. O Chile atualmente é o quinto maior exportador de vinhos do planeta, atrás dos tres grandes (Itália, França, e Espanha) e da Austrália.  As terras semi-áridas do Vale do Médio São Francisco (Brasil), a mais nova região produtora de grandes vinhos brasileiros já consagrados até com premiações, também irrigadas e outros ambientes similares. Isso porque a doença Fylloxera Vastratix não gosta de terrenos arenosos, pois não consegue deslocar-se nele, e os vinhedos inundados por irrigação, afogam os insetos. E assim foi debelado um dos maiores terrores da humanidade desta feita atingindo os vinhos através de muitos estudos e dedicação de homens de ciência, como sempre. Que nos sirva de exemplo nestes momentos difíeis que atravessamos com tantas mortes por seres humanos contagiados por mais um vírus que assola a humanidade. Lembramos de outros no passado que atingiram a humanidade como nos mostra a alta literatura do Sec. XX que produziu duas obras primas, Morte em Veneza de Thomas Mann e a Peste de Albert Camus, que abordam surtos de males devastadores. Em Morte em Veneza indiscrições apenas sussurradas começam a romper o silêncio em torno dos primeiros casos de cólera ocorridos na cidade. Em a Peste o sinal de que algo sinistro se aproxima é dado pelos ratos que passam a aflorar dos subterrâneos para morrerem à luz do sol nas ruas de Oran, Argélia, e que mais uma vez o progresso é sua causa, pois os barcos que voltam do oriente com mercadorias, trazem estes ratos contaminados para as grandes cidades italianas como Veneza, Milão e Florença no Sec. XIV dizimando um terço da população em algumas partes do continente, disseminando por toda a Europa,, onde no mundo dos símbolos ficou famosa a máscara da peste,com seu formato peculiar da máscara de bico longo quase um sinônimo da Peste Negra, usada pelos médicos medievais para manter a pestilência longe de suas narinas enquanto cuidavam dos infectados, tal como usamos hoje as máscaras evitando o corona virus, quanta conincidência não?. Pode-se arriscar, em meio à complexidade de sentidos de Morte em Veneza, que um deles seria o de uma Europa doente, a caminho da la Grande Guerra (o livro é de 1912). Já A Peste, na visão de uma maioria de intérpretes, é uma alegoria à pestilência do Nazismo. Publicado em 1947, na euforia da vitória sobre Hitler, mas lembrando que o bacilo não morre nem desaparece jamais. Citamos o escritor Dan Brown em uma de suas obras Best Seller Inferno: “Esta é a nova Idade das Trevas. Séculos atrás, a Europa estava em sua própria agonia. Pergunte-se o que veio depois da Peste Negra? A Renascença, o Renascimento. Tem sido sempre assim. A morte é seguida pelo nascimento”. Fica nossa reflexão ante o mundo que estamos vivemos. Leia mais em nosso livro VINUM VITA EST – A HISTÓRIA VISTA PELO VINHO.

Osvaldo Nascimento Juniors.`. Advogado, empresário, Enófilo, Sommelier,Professor de cursos e Palestras sobre vinhos, Colunista de vinhos do Diário Indústria e Comercio do Paraná ha 10 anos semanalmente  e de diversos veículos de comunicação, autor do livro sobre vinhos VINUM VITA EST – A HISTÓRIA VISTA PELO VINHO, sucesso de vendas nos cursos, palestras e encontros de Vinhos, uma viagem didática e cultural ao mundo de Baco. Fica nossa reflexão ante o mundo que vivemos.