O Pantera Negra, a identidade afrodescendente e a apreciação cultural

511

A madrugada de sexta para sábado deste final de agosto amanheceu mais triste, em especial a comunidade artística de Hollywood e os fãs das histórias da Marvel, com a precoce perda do jovem, mas já veterano ator Chadwick Boseman, o Black Panther, que sucumbiu após secreta luta contra um câncer de cólon, depois de quatro anos.
O carismático e brilhante ator que nos deixou aos quarenta e três anos já havia conquistado o mundo do showbiz e se tornado um ídolo e um símbolo, encarnando icônicos personagens negros da história, como James Brown, o jogador Jackie Robinson, o primeiro negro a jogar na principal liga norte-americana de baseball; além de ter dado vida a Thurgood Marshall, o primeiro afro-americano a ser nomeado para a Suprema Corte nos Estados Unidos, à época sob a presidência de John Kennedy. Mas o papel de maior representatividade, talvez pelo alcance das histórias da gigante Marvel, foi, de fato o do Rei T´Challa, protagonista do Pantera Negra.
Este filme foi um dos maiores sucessos do estúdio de todos os tempos, com receita de bilheterias superando os U$ 1,3 bilhão já no ano de seu lançamento, contrariando prognósticos e convicções de alguns executivos do setor de que filmes com protagonistas do cor não são atraentes para o público.
Não só agradou como também foi o primeiro do Universo Marvel a concorrer ao Oscar na categoria de melhor filme, tendo levado três estatuetas: melhor direção de arte, melhor trilha sonora e melhor figurino, elaborado pela consagrada costume designer Ruth E. Carter, ela também uma protagonista da noite da premiação, por ser a primeira mulher afro descendente a ganhar um Oscar nesta categoria.
Pouco conhecida do grande público, a figurinista é extremamente respeitada e considerada uma referência desde seu magistral trabalho no filme “Faça a coisa certa”, de Spike Lee, um clássico sobre relações inter-raciais.
Falar da importância do respeito à ancestralidade e diversidade cultural neste momento, nos parece oportuno, face o contexto mundial. Em especial nos Estados Unidos em razão dos protestos contra a violência racial, e no Brasil, onde os Orixás do Palácio do Planalto “foram exilados”, como escreveu o jornalista Rubens Valente em sua coluna de 20 de agosto passado publicada na Revista Piauí.
Pois bem. O figurino criado por Ruth Carter para Pantera Negra foi um elemento fundamental do sucesso do filme, e para reforçar a credibilidade do Rei T´Challa e do reino de Wakanda, criando o que ela chamou de estética “afrofuturística”, onde vestes tradicionais ancestrais de vários povos do continente recebem elementos de modernidade para compor a história, desestigmatizar as culturas tribais e acabar com estereótipos deletérios sobre a África.
Ruth buscou sua inspiração em várias comunidades como as dos Maasai, dos Tuaregs, Zulus, Yorubas e outras, já que Wakanda era o reino que de certa forma, unificava todos os demais, sob a liderança de T´Challa.
Os esplêndidos figurinos idealizados por Carter, são fruto de extensos estudos e pesquisas que incluíram viagens à África e reuniões com representantes de várias etnias, para certificar-se de que entendeu o significado e a história por trás de cada artefato replicado para o filme, não correndo o risco de desvirtuá-los.
Todo esse cuidado se justifica não só pelo fato de ser, ela mesma descendente da diáspora africana, mas também pela preocupação de respeitar a cultura de cada povo e seus símbolos, além da necessidade de transmitir autenticidade e informação correta ao espectador, de maneira que a reprodução dos elementos fosse interpretada, não como uma leviana apropriação cultural, mas como uma homenagem e uma forma de honrar os costumes e saberes ancestrais. O trabalho primoroso de Ruth é um belo exemplar dessa arte vestível.
“A história afro-americana não é muito explorada em livros, então, temos a obrigação de contá-la com responsabilidade nos filmes(…)”, disse a figurinista no documentário “Abstract- The art of design”, exibido pela plataforma Netflix.
A indústria da moda pode aprender algumas lições com Carter, em especial sobre a utilização de elementos culturais em suas criações, pelo respeito e reverência no tratamento destes dados.
Li Edelkoort, a celebrada e influente trend forecaster de muitas marcas famosas, previu a tendência forte da inspiração étnica nas criações de moda há algum tempo. Porém, ao que parece, nem mesmo os gigantes da indústria realizam a necessária due diligence ao importar elementos culturais pertencentes a comunidades e etnias, acabando por incorrer em apropriação cultural indevida.
Casos como os das tribos Maasai do Quênia e Tanzânia e Louis Vuitton (2012); a comunidade mexicana de Santa Maria Tlahuitoltepec contra Isabel Marant (2015), A Nação Navajo e a marca norte-americana Urban Outfitters (2016); ou o vilarejo de Bihor na Romênia contra Dior (2017) ganharam as notícias, justamente por deixar de referenciar e dar a devida visibilidade aos verdadeiros criadores.
A moda pode ser um excelente veículo para a transmissão de informações de saberes tradicionais para as gerações futuras. A utilização destes elementos como fonte de inspiração faz a moda mais plural, colorida e inclusiva.
Porém, respeitar a titularidade dessas tradições, as diferentes identidades é imprescindível. A responsabilidade começa no departamento de design. Pesquisa e suporte técnico especializado são fundamentais para obter clareza sobre os limites entre inspiração, apreciação e apropriação.
#wakandaforever

Moda e apropriação cultural

Arruinado pela Fendi, copiado pela Gucci, dono de trajetória insólita na moda, esse é o mundo de Daniel Day, mais conhecido como Dapper Dan, o designer do Harlem criador nos anos 80 da “logomania”, contemporânea do surgimento dos vários novos gêneros musicais como rap, hip-hop e funk.
Day, observador arguto da efervescência a sua volta, foi muito inteligente, ao perceber nos anos 80 o crescente interesse e a importância dos símbolos das marcas do luxo como Gucci, Fendi, Louis Vuitton para a sociedade de consumo, interpretá-los e usá-los para recriar uma cultura do luxo para novos milionários da música, dos esportes e das atividades ilícitas como tráfico de drogas e prostituição, que faziam carreira no então desfavorecido reduto do Harlem em Nova York.
Naquela época, as marcas de luxo ainda não assinavam coleções de vestuário e acessórios, ou patrocinavam desfiles espetaculares, mas criavam bolsas, sacolas de viagem e acessórios, todos estampados com seus caraterísticos anagramas.
Entendendo que ostentar aqueles símbolos havia se tornado sinal de riqueza e poder, Dapper desmanchava as peças, as cortava e transformava em enormes e bufantes mangas de camisa, punhos, frisos de calças, etc., para uma clientela provida de meios, mas desprovida de acesso às requintadas marcas localizadas nos mais elegantes endereços do Uptown.
A ideia foi tão bem sucedida que clientes interessados em adquirir as extravagantes peças de Dapper eram direcionado pelas próprias vendedoras das boutiques das marcas para seu pequeno atelier no Harlem.
Até que, em 1992, ele foi processado judicialmente pelas marcas Fendi, MCM e Louis Vuitton por violações de direitos de propriedade intelectual, e após o cumprimento de uma ordem de busca e apreensão, Dapper fechou seu atelier.
Mas o destino tende a nos surpreender.
Depois de anos na obscuridade, a italiana Gucci, que vem surfando com sucesso absoluto a onda do streetwear, apresentou em 2018, na coleção Cruise uma jaqueta bomber de vison com mangas balão praticamente igual à versão Louis Vuitton criada por Dan em 1989, um clássico de suas criações.
A peça gerou indignação e acusações à marca por apropriação cultural indevida, sem a menção ao criador.
Muito embora tenha tentado esclarecer que a peça foi uma homenagem ao designer para evitar eventual demanda por violação de direitos autorais, a Gucci criou uma coleção cápsula colaborativa com Dapper Dan, fez dele o rosto da campanha, além de fornecer ao seu atelier tecidos, aviamentos e outras matérias primas exclusivas para as criações de Dan.
Em um país onde recorrentes relatos e registros de violência policial contra negros ganham as primeiras páginas dos jornais, é sempre oportuno lembrar da riqueza da alteridade e diversidade na cultura, na arte na moda.
Frase da semana: “O homem que trabalha com as mãos é um operário; um homem que trabalha com as mãos e o cérebro é um artesão; mas um homem que trabalha com as mãos, o cérebro e o coração é um artista.” Louis Nizer, escritor e advogado britânico.

Ana Fábia R. de O. F. Martins – Advogada, Especialista em Direito e Negócios Internacionais e Moda