A concepção do termo agronegócio e sobretudo a sua aceitação, notadamente no Brasil, vem se constituindo em um dos mais relevantes fatores de transformação da agricultura brasileira

A concepção do termo agronegócio e sobretudo a sua aceitação, notadamente no Brasil, vem se constituindo em um dos mais relevantes fatores de transformação da agricultura brasileira, especialmente pelo caráter de negócio que ela passou a ter, diferentemente da imagem caipira que sempre teve, imagem essa associada ao extrativismo puro e simples, sem reposição, imagem associada ao primitivismo de jecas tatu.

A agricultura ao se assumir como negócio passou a se reger pela máxima de que “quem não tem competência não se estabelece”. Assim fica mais fácil, pois menor passa a ser o remorso ao contemplar aqueles agricultores coitadinhos que passam fome no meio rural, mesmo no Paraná de solo e clima generosos. Para esses e segundo eles, essa é a vontade de Deus, nada mais apropriado que uma combinação de religião com doação de alimentos. Algo assim como um programa fome zero administrado pelas igrejas.

Com a agricultura como negócio, o meio rural deixa ou terá que deixar de ser o espaço residencial da incompetência agrícola, isso porque no passado e ainda hoje, quando a pessoa não servia para nada servia para ser agricultor. Isso, naturalmente, no julgamento comum, pois em sendo a agricultura uma das mais complexas atividades produtivas, só os mais aptos poderiam explora-la. Mas assim não foi e ainda por algum tempo assim não será.

A transformação provocada pela aceitação do termo agronegócio no caso brasileiro então nem se fala, especialmente pela conjugação de fatores aceleradores dessa transformação, notadamente tecnologia de cerrados e mercado internacional amplamente favorável. Outro termo consagrado junto com o agronegócio é o das chamadas cadeias produtivas. Ambos são juntamente citados, sendo tudo ou quase tudo cadeia produtiva do agronegócio.

E o negócio da assistência técnica onde entra nisso? Ou não entra? Ela está condenada a ser eternamente paga diretamente por alguém que não o próprio produtor? Sim, porque indiretamente o produtor a paga, seja para o governo, para a cooperativa, para as indústrias e comerciantes de insumos e equipamentos, etc… Poderia o agricultor ter um técnico exclusivo ou quase exclusivo para chamá-lo de “meu técnico”? Pode sim.

Nesse campo ainda há que se avançar muito, tanto produtores quanto técnicos, há que se vencer uma barreira que embora ainda grande foi muito maior no passado. Não é demasiado supor que o nó começaria a ser desatado na medida em que se identificassem e colocassem frente a frente, agricultores e técnicos que estejam a procura de parceiros que os façam por mais dinheiro no bolso. Nem patrão nem empregado, mas parceiros, na verdadeira acepção da palavra.

Joaquim Severino – Professor de Política Agrícola da Universidade Federal do Paraná e Diretor Presidente da empresa Agrária Engenharia e Consultoria S/A, escreve nesta coluna desde 1992.