Nossa capacidade de mudança e o home office

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Renata Baglioli, advogada

Muito tem se discutido sobre as vantagens e desvantagens do trabalho remoto, em home office, uma alternativa que se tornou realidade diária em tempos de pandemia no mundo todo.
Nós, serem humanos, somos naturalmente refratários a mudanças, mas esta dificuldade é superada infinitamente pela nossa capacidade de adaptação.
Desde o tempo dos homo sapiens nas civilizações pre históricas até os memoráveis dias deste cabalístico ano (e outros que virão), faz parte da natureza do homem, atendendo a seu instinto de sobrevivência, adaptar-se ao meio e às circunstâncias. Atualmente, por certo que o ambiente é mais sofisticado e favorável às mudanças.
Esta fantástica capacidade de aceitação e adaptabilidade à mudança tem seu primeiro reflexo no cérebro, órgão humano dotado desta capacidade. Os neuroscientistas a definem como “plasticidade”, é esta área que passa a ser desenvolvida no cérebro, diante de novos comportamentos, que se expande, criando novas células nervosas que passam a desenvolver sinapses a partir destes estímulos diferenciais. A repetição destes estímulos, com novos comportamentos, expande o campo neural e, holisticamente, permitem a abertura a uma nova perspectiva individual sobre o mundo.
Da pandemia adveio, não apenas um novo “normal”, mas novas perspectivas, um (ou vários) outros olhares sobre as coisas.
Se no trabalho remoto, na comodidade do lar – e muitas vezes na falta de recursos adequados à ergonometria e conectividade- há vantagens de ausência de deslocamento, maior interação e cooperacao familiar, e os desafios diametralmente opostos, no ambiente de trabalho coletivo se perdeu a potencialidade da soma dos indivíduos, mas se ganhou na máxima da meritocracia.
Em ambientes remotos, destacam-se as entregas, a dedicação (disponibilidade), o comprometimento dos profissionais. Essas qualidades e performance não são difíceis de ser medidas.
Se no todo (trabalho conjunto nos ambientes físicos empresariais) ha sinergias e ganhos do trabalho em equipe, na individualidade que os home offices proporcionaram ha o trabalho do indivíduo, que pode (e deve) ser complementado pelo trabalhos dos demais indivíduo, exigindo destes integração, interação e colaboração (remotos), soft skills apreciadas nos dias de sempre. A dependência e necessidade de aprovação e validação de superiores já deveria estar superada; se as métricas são discutidas, compreendidas e adequadamente alinhadas entre os profissionais (empregador e empregados, e estes, entre si), espera-se dos profissionais a auto regulação, o discernimento, e, in the end of the day, o fruto do trabalho.
E que se aceitem críticas (em feedbacks) para que todos evoluam. Nada de dramas latinos, este ambiente tem a pretensão de mostrar a necessidade de preparo, aprimoramento constante e profissionalismo. Já não era sem tempo. O Brasil é o pais dos retrabalhos e de horas improdutivas, era chegado o tempo da mudança.
Quando a pauta da sustentabilidade se mostra presente (passado e futuro), nao faz sentido lotar grandes centros, amontoar lixo, poluição, frenesi, falta de espaço (e, atualmente de ar salubre), quando ha espaços remotos disponíveis, graças à tecnologia, uma realidade sem volta.
A discussão sobre o futuro do home office e troca de argumentos é saudável. Tentar prever tendências e futuro, talvez uma arrogância ou apenas perda de tempo.
Vale aproveitar as sinapses e plasticidade que esta mudança comportamental, o home office, trouxe, com as tantas vantagens para o profissional, a empresa, a comunidade, a familia. Em minha humilde opinião, essa tendência veio para ficar (mas não é para todas empresas e necessariamente em tempo integral). Veio para ficar, guardadas customizações e em determinados setores, àqueles grupos e empresas que souberem ter um outro olhar sobre as coisas.