Museu virtual de escola retrata mudanças da educação ao longo de 40 anos

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Projeto envolveu crianças de 3 a 6 anos, que entrevistaram ex-alunos e até a fundadora da escola, hoje com 87 anos

Há quem diga que, assim como ocorre com o estilingue, quanto mais “puxamos” o passado para trás, mais adiante iremos no futuro. Foi pensando nisso que o Peixinho Dourado Berçário e Educação Infantil criou um museu virtual de seus 40 anos: um site especial que, além de reunir fotos, depoimentos e vídeos, permite acompanhar as transformações ocorridas com o próprio conceito de educação infantil na região de Curitiba desde os anos 1980.
“Para nós, o senso de pertencimento da criança é o principal: ela saber que faz parte de algo, porque somos seres sociais. E o resgate da nossa história conta um pouco de quem a gente é, intensificando ainda mais nossa identidade. Da mesma forma, queremos ajudar as famílias na construção da história de seus filhos”, explica a diretora e pedagoga do Peixinho Dourado, Marianna Canova.
“Quando a escola surgiu, em 1980, muitas mulheres só mandavam os filhos à tarde para a escola, para brincar um pouco e para que elas tivessem um tempo para si”, conta a produtora cultural e curadora Michele Micheletto. Mãe de uma aluna do último ano da escola, ela foi convidada a pensar o projeto e estruturá-lo – e selecionou muito material entre mais de 700 fotografias.
As primeiras fotos resgatadas mostram crianças tomando refrigerante – um exemplo bem prático de uma mudança radical ocorrida no contexto das escolas. “Em quatro décadas, quanta mudança! São questões culturais que permeiam nossa visão de educação nesse período.”
A escola passou por mudanças sociais ao longo do tempo, ampliando seu espaço para bebês, revendo sua prática diária, com um centro de formação dos funcionários e oportunizando melhorias como aulas de inglês e até mesmo sessões com fonoaudióloga – grande auxílio para famílias que não têm tempo de levar os pequenos às seções.
Com isso, é possível dizer que a escola se ajustou às necessidades de seus públicos, com períodos diferenciados para escolha das famílias, jantar e até mesmo o estacionamento, tão necessário para uma era em que os alunos não vêm apenas das imediações.
Para pensar sobre tudo isso e elaborar um projeto tão ousado, ex-alunos foram convidados a voltar à escola onde brincaram no passado para rever amigos, verificar “tudo que mudou” e até ser entrevistados pelos atuais alunos de 6 anos.
O processo de resgate também salientou pontos fortes do Peixinho Dourado. “A gente se conheceu com 2 anos e hoje tem 19”, brincam as estudantes Maria Luiza Túlio e Camila Smuda. Em conversa com um grupo de quatro alunos atuais, elas relembraram o quanto eram diferentes uma da outra, e como a escola valorizou suas particularidades. “Hoje vejo que aprendi a me respeitar e amar já naquela época, porque a Camila era muito detalhista, enquanto eu era mais criativa, e estava tudo bem, uma completava a outra”, relembra Maria Luiza.
A visita do ex-aluno Maurício Grad, hoje com 42 anos, também foi marcante. Junto com sua mãe, que trouxe fotos da época, foi possível conhecer um pouco da história de vida de um dos alunos mais antigos da escola.
A participação das crianças foi fundamental no projeto de memória, e foi possível inserir muitas questões nas aulas ao longo de 2020. “Uma turma com crianças de 4 anos fez uma analogia do aniversário de 40 anos da escola com as raízes das plantas, pesquisou seu funcionamento e assim entendeu que todos temos uma história que nos sustenta”, conta Marianna.
“Também houve a construção do bolo da escola com elementos da natureza – outra ênfase importante dos últimos anos na instituição –, e outras ainda escreveram um cartão sobre as professoras e os amigos”, detalha Michele.
Abordagem Reggio Emilia
Desde sua criação, o Peixinho se mostrou diferente na questão da socialização e da valorização de tudo que é simples e essencial. Isso ficou claro na visita da fundadora, convidada a conversar com a equipe de gestão atual. Num longo bate-papo, ela relembrou o jardim da antiga sede, a casa de madeira e as brincadeiras das crianças naquele início. “Quando cheguei no bairro, percebi que não havia nada na redondeza para ajudar as mães, e pensei: vamos montar um jardim de infância aqui”, relembra Maria José Braga, hoje com 87 anos.
Já naquela época, ela buscava especializações – formada em Música, Maria José buscou recursos da Musicoterapia, aprendeu os cuidados necessários para crianças com deficiência e fez viagens pedagógicas. Apesar de, até então, não se conhecerem, qualquer semelhança com a incansável equipe pedagógica atual, não será coincidência!
“Nossa forma de enxergar a criança como extremamente capaz e criativa, sem dúvida se encaixou com aquele início tão dedicado da Maria José”, explica Marianna. Após muita pesquisa, a escola aderiu na última década à abordagem educacional Reggio Emilia, que busca a maior autonomia dos alunos, o trabalho conjunto com as famílias e valoriza, entre muitos outros recursos, os elementos da natureza.
Com lançamento dia 27 de janeiro de 2021, o Museu Virtual do Peixinho Dourado contará com vídeos elaborados para contar toda essa história, muitas fotos que falam de como era a infância nos anos 1980 e 90 – e dos valores eternos que perpassam a trajetória das cerca de 3 mil famílias que já frequentaram a escola – um verdadeiro reflexo da sociedade.

Sobre a escola: O Peixinho Dourado Berçário e Educação Infantil já formou muitas gerações. Desde 1980 instalado no Alto da XV, em Curitiba, acolhe crianças de 4 meses a 6 anos, com uma proposta pedagógica diferente. Por acreditar que todo mundo nasce um pequeno cientista curioso, investe em projetos que partem das próprias crianças, incentivando a descoberta com o uso de diferentes temas e materiais. Sobretudo, traz o cuidado com cada aluno de maneira completa, desde uma alimentação bem saudável até os aspectos cognitivo, social, emocional e funcional.