Moda regenerativa e sustentabilidade – novos conceitos para novos tempos.

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De 07 até 12 de novembro está acontecendo o Brazil Immersive Fashion Week –o primeiro evento de “moda imersiva” da América Latina. Totalmente online, a iniciativa pretende reunir marcas, artistas, profissionais independentes e grandes empresas de tecnologia para trocar experiências sobre formatos de criação, produção e apresentação de coleções de moda pensadas para ambientes integrados com as redes 5G.

A discussão é relevante e oportuna, pois as novas tecnologias estão impactando profundamente maneira como se produz, comercializa e consome moda. A pandemia da COVID-19 foi um grande catalisador dessa mudança por conta da necessidade de diminuir a circulação de pessoas, e pela adoção de modelos digitais em várias fases da cadeia produtiva.

Entre outros painéis apresentados no dia 08 de novembro afeitos à temática da ruptura do atual modelo de consumo exagerado, chamava a atenção o que tratava da moda, consumo e economia regenerativa. Esse conceito recente vem lançando novos parâmetros para pensar a nossa relação com o planeta terra e com as pessoas, questionando, inclusive os fundamentos estabelecidos pela palavra do momento – a sustentabilidade na indústria da moda.

Diversas são as tentativas de encontrar um conceito que contemple todos os aspectos da sustentabilidade. A definição que tem se tornado clássica entende a palavra como referente à habilidade em suprir as necessidades físicas, materiais e psicológicas das gerações atuais, sem, contudo, comprometer o mesmo direito das futuras gerações à satisfação destas mesmas necessidades. Trata-se da essência do desenvolvimento sustentável.

As professoras Alessandra Vanessa Teixeira e Daisy Ehrhard, da Universidade do Vale do Itajaí, em Santa Catarina, definem, em seu artigo “Sustentabilidade da Relação entre e Sociedade de Consumo e a escassez dos Recursos Naturais” (in: Sociedade de Consumo e a Multidisciplinariedade da Sustentabilidade (Ed. Lumen Juris,1ª Edição, 2019), pg. 114): “A palavra sustentabilidade remete ao processo que melhora as condições de vida das comunidades humanas e respeita os limites da capacidade de carga dos ecossistemas(…..), devendo ser visto no aspecto ambiental, e também com  base no enfoque social, empresarial, administrativo e econômico.”

No entanto, algumas vozes na indústria, em especial designers independentes e consumidores das geração millenials e Z, se antecipam em afirmar que, dado o caos já estabelecido no planeta, resultado da ingerência direta de ações humanas levando a enorme desequilíbrio, preocupar-se apenas com a manutenção da terra exatamente nas condições em que se encontra significa tão somente administrar os danos já praticados, o que é insuficiente para produzir os resultados sociais, ambientais e econômicos positivos que conduzirão à recomposição do ecossistema severamente avariado.

Essa reconstrução somente poderá ser atingida por meio da economia regenerativa, cujos princípios deverão se aplicar a vários setores, em especial ao da moda, um dos mais intensivos no emprego de recursos naturais e humanos.

A expressão moda regenerativa já vem se incorporando ao vocabulário corrente das novas gerações, como um desdobramento da aplicação dos princípios da sustentabilidade a todos os atores da cadeia produtiva necessária à fabricação de vestuário, calçados, roupas, acessórios, perfumaria, cosméticos, joias, etc.

E, a indústria da moda necessita com urgência passar por uma regeneração, pois visceralmente dependente de recursos naturais. Em especial as empresas de vestuário e calçadista, que têm, a primeira no algodão convencional a fibra essencial de sua cadeia de valor, respondendo por oitenta por cento dos insumos empregados; e a segunda, na agropecuária a fonte de sua matéria prima, o couro natural.

A adoção de práticas regenerativas pelos fornecedores de insumos já no início desse encadeamento produtivo como os agricultores e pecuaristas, pode incluir, por exemplo, o uso de compostagem ao invés de fertilizante sintético, plantação quebra-ventos que são linhas de árvores nas bordas de um campo para diminuir a erosão do solo e preservar seus nutrientes, aumento da área de plantação de algodão orgânico em lugar do sintético, aumento da plantação do cânhamo industrial, um indutor natural do melhoramento do bioma, pois é uma cultura que não necessita de fertilizantes ou agrotóxicos, etc., certamente terá impacto positivo nas demais fases da cadeia.

Boas práticas agrícolas e de pastagem são capazes de inverter as mudanças climáticas, reconstruir a matéria orgânica, diminuir e pegada de carbono, a pegada hídrica e restaurar a biodiversidade degradada do solo, segundo a organização sem fins lucrativos Regeneration International.

Segundo a diretora de Programas de Sustentabilidade do poderoso Conglomerado de Luxo Kering, Géraldine Vallejo, dois terços do impacto ambiental ocorrem logo no início da cadeia de fornecimento da matéria-prima.

Após um ano como 2020, regenerar vem sendo a palavra de ordem.

Ana Fábia R. de O. F. Martins – Advogada Especialista em Direito e Negócios Internacionais e Moda.