Minha filha me educou na quarentena

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*por Claudia Queiroz

Quase um ano depois de tantas mudanças de hábitos e rotinas, volto minha atenção às crianças. Elas, sempre conectadas com os próprios interesses, autênticas, manifestando vontades e desejos, além da nossa presença a cada vez que pronunciam a palavra MÃE, fizeram chamada para as verdades da “vida como ela é”.

No choro da fome, manha de sono, agitação pelas descobertas, conectadas ao próprio mundo, elas sempre arrancam nossas máscaras de controle ou de sensação de perfeição para extraírem a pura essência de nós.

Houve muito choro pré-datado, já que pisei no freio e acelerador quase que simultaneamente, mas aprendi a diferenciar urgência de emergência, vontades de necessidades reais e assim por diante…

Faltou tempo pra mim, eu sei. Aliás, que saudades de me encontrar… E neste novo rascunho de normalidade que se aproxima com a volta às aulas, por exemplo, percebo o quanto a maternidade vem sendo privilégio de renovação pra mim (e acredito que para todas as mães também).

Cuidar de alguém e contemplar o desabrochar da vida de uma criança me convidou a passar minha própria vida a limpo. Sem exageros, as crianças são o porto-seguro para pais que se aventuraram a crescer como seres humanos.

Um salto no infinito e além de nós mesmos. Porque não basta ter ou desenvolver instinto, tem que ensinar com exemplos e não teorias ou etiquetas. Para isso, a gente precisa ser e não parecer!

Minha filha é uma menina intensa. Curiosa e criativa, recebe estímulos para ser a melhor versão dela. Estou atenta a não rotular nem projetar minhas limitações ou frustrações nela. Também deixo a liberdade de expressão ter valor, para que ela se sinta respeitada e saiba respeitar os outros. Sem contar nos limites de perigo, devidamente exemplificados, para ampliar a visão dela de mundo e as explosões de sentidos gastronômicos, táteis, olfativos, visuais, sonoros….

A quarentena abriu uma espécie de “emocionário”, dicionário das emoções, em muitas páginas de superintensivo da vida. Uma viagem de exploração nas diversas facetas de sentir a própria existência, que pulsa e troca constantemente com o ambiente para se equilibrar.

Que essa jornada cheia de chão continue iluminando nossas descobertas, trazendo todo movimento necessário para as transformações. Obrigada filha, você é a luz da minha vida.

Claudia Queiroz é jornalista.