Cláudio Henrique de Castro

A rua lá de casa está insegura.

Não conseguimos atender um simples aparelho celular na calçada sem deixar de olhar para todos os lados, com medo de sermos furtados.

Usar relógio, pulseira ou colar, nem pensar.

Muro baixo, porta aberta numa noite de calor, de forma nenhuma.

Cerca alta, grades nas janelas, fechaduras reforçadas, alarme e câmeras com monitoramento remoto para quem pode pagar.

As casas e até mesmo os condomínios tornaram-se prisões a céu aberto.

O medo instalou-se nas cidades, periferias e nas zonas rurais. Dirigir um carro com os vidros abertos é uma aventura, ou um pedido para ser roubado.

O que pode resolver tudo isso? O que está sendo feito a respeito?

Dicas para a segurança privada? Construir presídios? Armar as pessoas? Intimidar a delinquência com penas mais rígidas, acabar com a prescrição do processo penal? Acabar com o crime organizado que está infiltrado em todos os cantos, inclusive no poder, com empresas legalizadas de fachada e tudo mais?

Não se fala em justiça social, de uma reforma tributária que possa cobrar os super ricos, que nada pagam de impostos, da drástica redução dos juros que fizeram dos bancos brasileiros os mais lucrativos do mundo civilizado.

O grande problema da exclusão social remonta a escravidão, pois até o ano 1888, data da abolição, toda a riqueza produzida, fabricada, plantada, cultivada e extraída, foi graças ao trabalho escravo dos negros e dos índios. O Brasil lhes deve 388 de toda infraestrutura, construções, estradas e toda a riqueza aproveitada.

Se fomos roubados pelo colonizador, foram também roubadas as almas de milhões de pessoas pela escravidão e que ainda não foi devidamente paga, continua produzindo efeitos devastadores.

O grande problema da criminalidade está vinculado aos abismos que a 12ª economia do mundo e a sua 84ª colocação no índice de desenvolvimento humano no mundo.

Se alguém é culpado por tudo isso é nossa elite política e suas instituições que nunca se sensibilizaram pelos excluídos, mantendo-nos num regime de semiescravidão, de castas sociais que exploram o trabalho e não dá dignidade às pessoas.

Episodicamente falam em auxiliar os atuais 33 milhões de famintos, os 45 milhões de excluídos da internet e do computador, os 12 milhões de desempregos e assim por diante, – tudo balela.

Nas eleições vem os discursos de transformações que, no geral, nunca acontecem, são meras peças publicitárias e falsas promessas que movimentos bilhões de reais para convencer o povo. Mas muito pouco é realizado de fato, fica tudo no esquecimento.

Sem as transformações sociais que o Brasil necessita, nada se resolverá.

Continuaremos enxugando o gelo com palavras, discursos e peças publicitárias que não alteraram a realidade, cada vez mais violenta, do medo, e de todos contra todos.

A renda mínima e salário-mínimo real é o primeiro passo, taxar as grandes fortunas e reduzir com o alto custo do dinheiro no Brasil, que trava toda a economia.

A Europa continuaria destroçada pela segunda guerra mundial acaso não tivesse entendido isso, dentre outros países, a Austrália, Nova Zelândia dentre tantos outros.

O que o direito pode fazer nisso tudo?

Nenhum país do mundo desenvolvido tem a grave falência social vigente no Brasil. Todos usaram as normas para a redução dos abismos sociais, não para conservá-los.