Inimigo íntimo

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*por Claudia Queiroz

É na infância que as ilusões começam a ser alimentadas. Adultos experientes sabem que todos podemos ter medos ou monstros de ‘estimação’, crescendo em meio a fantasias. Mas as crianças ainda não entendem isso e, geralmente confundem real com virtual.

Por que digo isso? Porque é comum minha filha de 4 anos acordar de madrugada assustada. Até aí, nada que um monte de abraço, beijo e carinho não garantam a proteção de acolhimento que a faça voltar pra cama, sonhando com anjinhos…

Infelizmente nem toda criança recebe esta atenção quando se sente vulnerável. Dia desses, conversando com uma amiga pedagoga, ela me contou de um menino que está atendendo. Ele tem 6 anos e sofre de Síndrome do Pânico. Não quer ficar sozinho de jeito nenhum. Tem medo do escuro, do quarto, do silêncio, da noite e dos fantasmas que enxerga com o coração…

A mãe do garoto briga muito com ele quando isso acontece. Às vezes tranca o filho no quarto “até que ele possa aprender, na marra, que não precisa sentir mais medo”.  Horas depois, quando destranca a porta, o garoto está enfurecido, chutando, brigando e com muita raiva dela. Ao que tudo indica, essa criança está descobrindo que precisa resolver seus dilemas sem ajuda.

Essa mãe provavelmente tenta encaixar o filho num comportamento padrão que tem como sendo ‘o certo’… Ao invés de compor em família a construção de uma convivência um pouco mais flexível, criada junto com ele.

Quem se aventura a inaugurar o exercício diário de maternidade está constantemente buscando equilíbrio entre expectativa e realidade. No entanto, quando abertos ao aprendizado prático, uma experiência que nos conduz ao infinito e além de nós mesmos, questionamos regras e descobrimos respostas singulares.

Naturalmente boa parte de nós deixa de pensar, agindo automaticamente enquanto ensina seus filhos a confundirem medo com respeito, autoritarismo com autoridade, imposições com obediência, dinheiro com amor…, e assim por diante. Mas é a conexão emocional que se torna a maior aliada das nossas próprias inseguranças. Junto com as crianças é que abriremos espaços para que elas floresçam.

Então que tal se exercitarmos mais empatia? Afinal, se tentarmos compreender o mundo dos nossos filhos, dentro do limite de entendimento de cada fase de vida deles, criaremos um novo modelo de relação em família, baseado no amor e no respeito. Porque isso molda personalidades, reflete luzes e sombras independentemente da idade.

Para uma criança, brincar é algo que se leva a sério, com concentração. Ela vive o lúdico não porque melhora a coordenação ou porque não há outra coisa a fazer. Como não segue roteiro, não fica condicionada a fazer as coisas de um jeito ‘certo’ e esse é o lado mais bonito de aprender a ser livre. Nos torna potencialmente únicos. Isso é ser criança.

Claudia Queiroz é jornalista.