Ilumine os pontos cegos

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*por Claudia Queiroz

Somos todos deficientes. Pode não nos faltar habilidade para falar, nos locomover,  enxergar, ouvir, mas nos faltam condições pra compreender um mundo diferente.

Nossas verdades são limitadas. Se fazemos assim, não tentamos assado… Impomos regras, somos cheios de truques e pontos cegos. E este ano de pandemia nos convidou a iluminar as próprias sombras e a lapidar valores dentro de casa, para ser mais do que parecer. Eis a questão!

Diferente é só uma outra maneira de enxergar as coisas. Sem certo, errado, julgamentos ou competições… Toda situação tem pontos cegos, falhas e ajustes.

Como seria bom se as famílias conseguissem essa visão global e individual de cada integrante, com a humildade em reconhecer limitações e honestidade para dar o peso justo a cada embate.

Desta maneira não haveria tanta queda de braço por poder e a colaboração aconteceria naturalmente, com empatia e de maneira recíproca. Afinal de contas, é dentro de casa onde acontecem os laboratórios mais importantes da pré-escola da vida!

Pais preparados para acolher deslizes dos filhos e indicar melhores caminhos; maridos e esposas que conseguem conversar sem duelar com golpes verbais e mortais; crianças que aprendem a serem gratas e a perdoar as falhas dos colegas sem alimentar raiva ou vingança…

Porque bater no peito quando achamos que temos todos os holofotes voltados para nossos interesses, cobertos de direitos disso ou daquilo é algo, digamos, insano, praticamente egoísta. Aliás, planejar uma vida só com direitos nos distancia da humanidade! E viemos para o mundo para sermos humanos. Essa é a grande lição da existência da nossa espécie.

Certa vez eu escrevi sobre prioridades. Quem tem mais urgência em ser atendido? Uma mãe com bebê de colo, um idoso, alguém com dificuldade de locomoção?

Lembro quando eu era pequena e ouvia meu pai dizer que a minha liberdade terminava quando começava a de outra pessoa. Isso fez eco a vida inteira. Acho que ele nem sabe o quanto isso foi importante. Mas é provavelmente o maior dos ensinamentos que recebi dele.

Não é porquê não preciso de cotas (já que faço parte da maioria) que me considero melhor que os outros. Não mesmo! Mas já quebrei o tornozelo e tive dificuldade de esperar em pé no trajeto do metrô com aquele gesso pesado…

Quando minha filha era bebê meu peito explodia de leite, vazava pela roupa próximo do horário de dar mama e eu estava no mercado. Seria minha a próxima vez?

E aquela situação de cólica por ter comido algo que cai mal e nos faz contorcer de dor bem quando o banheiro feminino está cheio? A porta exclusiva para pessoas com necessidades especiais brilha feito entrada do paraíso. Utilizar neste caso merece punição ou é facilmente compreensível? Exceções à regra, bom senso, empatia…

Se existem dificuldades ou diferenças, elas devem ser superadas com atitudes conscientes e não regras.

Uma sociedade só amadurece com bom senso. Um dia, todos nós teremos que lidar com alguma limitação. E aí eu quero ver se esse ângulo muda de prioridade.

Claudia Queiroz é jornalista.