Em fins de 1964, o ex-governador de Sergipe, Seixas Dória, voltou de Fernando de Noronha, para onde havia sido desterrado logo depois de golpe de 64, com Miguel Arraes, Djalma Maranhão, Mário Lima, outros, e lançou no Rio, com um sucesso retumbante (mais de 800 autógrafos), “Eu, réu sem crime”, apresentado pelo também sergipano Joel Silveira.

Histórias de Joel Silveira
Em fins de 1964, o ex-governador de Sergipe, Seixas Dória, voltou de Fernando de Noronha, para onde havia sido desterrado logo depois de golpe de 64, com Miguel Arraes, Djalma Maranhão, Mário Lima, outros, e lançou no Rio, com um sucesso retumbante (mais de 800 autógrafos), “Eu, réu sem crime”, apresentado pelo também sergipano Joel Silveira.
Na manhã seguinte embarcaram, no Rio, Seixas, Joel, José Aparecido, Oswaldo Peralva e Niomar Moniz Sodré, e foram lançar o livro em Belo Horizonte, na sede da sucursal do “Correio da Manhã”. Mal chegaram, receberam, no Hotel Normandy, a visita de um oficial do Palácio da Liberdade. O governador Magalhães Pinto comunicava que o lançamento do livro estava proibido, “para não perturbar a ordem pública”.
Seixas e Niomar foram ao palácio e disseram ao governador que o livro seria lançado de qualquer jeito, e foi. Só que o primeiro autógrafo foi para a polícia, que chegou, cercou, expulsou todo mundo, televisões, rádios, jornais. O episódio virou um escândalo nacional. Na saída, o grupo ainda foi agredido, a pedradas, pela famosa “falange do general Bragança”.

Neurose
Dali, seguiram para a casa de Bernardino Machado de Lima, ex-presidente do Partido Socialista Brasileiro em Minas, fraterno amigo de Aparecido. Chegaram, limparam e arrumaram as roupas agredidas, rasgadas, começaram a conversar. Água, cafezinho e um estirado papo mineiro.
Em cima de um móvel, intocada, uma maravilhosa garrafa de uísque 17 anos. Joel Silveira, com a garganta desesperada, olhava, suspirava, bebia o rótulo, mas, sem intimidade, não se aventurava a pedir uma dose.
De repente, uma bomba poderosa, fortíssima, explodiu na varanda, arrebentou vidros, arrombou a janela. Joel voou para a garrafa, chamou Marielza, a dona da casa:
– Minha senhora, tenho neurose de guerra e ela só cura com uísque.
A garrafa morreu em instantes.

Lacerda
Carlos Lacerda escrevia na “Revista Acadêmica” e Joel em “Diretrizes”. Um dia, Lacerda fez uma proposta a Joel: “Está tudo muito parado, tudo muito morno nesta ditadura aí (a de Vargas). Vamos procurar um assunto e agitar o ambiente. Escolhemos um figurão, um ataca e o outro defende. Dá certo.
– Ótimo, Carlos. Quem?
– O Portinari, por exemplo. Está na crista da onda, com um prestígio enorme e uma obra muito importante. Você escreve um artigo metendo o pau nele, depois eu defendo.
– Está bem, Carlos, mas vamos fazer o contrário. Você ataca o Portinari que eu defendo”.
A imprensa continuou morna.

Peralva
Oswaldo Peralva era dirigente do Partido Comunista, ficou escandalizado com o Relatório de Kruschev denunciando os crimes de Stalin, não quis mais, saiu, escreveu “O retrato”, um livro corajoso e magistral, e andava muito chateado com a situação toda. Encontrou-se com Lourival Coutinho, conversaram. Lourival contou a Joel:
– Coitado do Peralva. Saiu do PC decepcionado, perdeu os melhores anos da vida dele.
– Avisei a ele. Ele não me ouviu porque não quis. Eu sempre dizia a ele: “Peralva, faça como eu, entre para o Partido Socialista, porque lá você não se ilude mas também não se desilude”.

“Diretrizes”
Joel, já nos tempos de “Diretrizes”, conquistou a fama de maior repórter do País, porque tratava as coisas cruamente, sem medo e piedade. Começou uma série de reportagens sobre velhos dirigentes políticos. E acabava sempre dando umas bordoadas nos coitados, que saíam mal nas matérias. Um dia foi procurar o velho Antonio Carlos de Andrada, que, depois de governar Minas e presidir a Câmara dos Deputados, foi ser presidente do Banco Lar Brasileiro, durante a ditadura de Vargas.
Mal entrou, Joel levou um susto. O velho Andrada começou a falar de Sergipe, do pai dele, dos amigos dele, da geração dele. Depois, perguntou como iam os livros de Joel, citou um a um, fez comentários, elogiou as crônicas da FEB, na Itália. Joel ficou encantado, fez a entrevista e publicou em “Diretrizes” uma matéria muito simpática sobre o velho Antonio Carlos.
Um amigo, surpreso, perguntou a Antonio Carlos como conseguiu.
– Muito simples. Passarinho que não pode fugir de cobra fica voando em volta. Eu dei um vôo em torno dele, dos livros, ele amansou. Foi só jeito.

O tempo
Joel viveu (e bebeu) a vida vorazmente. E ainda reclamava: “Uma das coisas mais aborrecidas na velhice é essa história de a hora só ter 30 minutos e o minuto 30 segundos”. Com seu riso sarcástico e sua alma de menino grande, viveu o tempo (88) de nos deixar muitas das mais belas páginas da imprensa brasileira.