Estrangeirismo empobrece o vocabulário, o idioma e o país

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Luiz Carlos Borges da Silveira

Os brasileiros sempre foram fascinados pelo estrangeirismo, poluindo o idioma próprio. Houve época em que o francês era preferido, tornou-se muito comum mesclar termos franceses com o português e os nomes próprios importados encantavam. Vocábulos e expressões no original, nada de aportuguesamento. Com o tempo o francês saiu de moda.

Porém, o gosto e a tendência não desapareceram, apenas mudaram, hoje a língua que fascina é a inglesa. Como o estrangeirismo na linguagem escrita ou falada não é proibido convivemos atualmente com o uso despropositado e abusivo do ‘inglesismo’. Nas relações de trabalho e curriculares o exagero chega ao ponto de pessoas imaginarem que seu valor profissional se torna maior quando expresso em inglês: coach, CEO, personal trainer são alguns exemplos; na comunicação cotidiana e informal os termos ingleses são falsos rótulos de inteligência.

Nas reuniões corporativas a linguagem é tão poluída que quem não estiver preparado corre risco de ficar ‘por fora’, porque os pernósticos não abrem mão, acham que isso é sinal de sapiência ou superior qualificação profissional. Um jornal de Brasília, em reportagem que tratava do assunto, satiricamente abriu a matéria simulando o início de uma reunião, exatamente assim: “Boa tarde, vocês trouxeram o briefing? Precisamos fazer um brainstorm para definir o tema do workshop com o coach. O CEO e o COO pediram para darmos feedback logo, pois o deadline do job está próximo. Não podemos decepcionar o board!”

Sinceramente, não tenho conhecimento de que países adiantados sejam adeptos do estrangeirismo em seus idiomas nacionais. Suécia, França, Alemanha, entre outros, só utilizam o inglês quando se trata de termos técnicos ou vocábulos específicos ainda não traduzidos ou sem um correspondente conhecido. A Espanha, por exemplo, é extremamente cautelosa e criteriosa no uso de neologismos e palavras estrangeiras. Portugal é ainda mais severo: a norma é aportuguesar tanto quanto possível.

Entendo que isso é porque o conceito de soberania e identidade de uma nação passa pelo idioma. Um país que não valoriza e defende sua língua nacional perde posição de relevo no contexto das nações, perde respeito e identidade. Em nosso país parece que esse fundamento não é levado em consideração.

É evidente que o extremado uso do estrangeirismo, aparentemente inofensivo, acarreta ao país também danos econômicos, ainda que isso não seja perceptível. Um país que se apequena em quaisquer circunstâncias ou valores está em desvantagem, em vulnerabilidade. O plágio, a submissão a idioma ou vocabulário estrangeiro é clara carência de soberania e isto é levado em conta nas relações culturais, políticas e comerciais. Soberania é atributo de nações fortes.

Os brasileiros usuários e consumidores do inglesismo deveriam considerar essas evidências.

O Brasil é uma grande nação, país continental com invejável território totalmente habitável e explorável, não registra problema de ordem natural, tem clima adequado e estável sem grandes catástrofes, possui invejáveis recursos hídricos e solo rico em minerais e excelente para a utilização agropecuária, tanto que o agronegócio é fator de riqueza na balança comercial e de orgulho pelo fato de, sozinho, prover a alimentação de muito mais de um terço da humanidade. Somos a 9ª economia do mundo e formamos um povo de índole pacífica e aberto à convivência racial. Só falta aos brasileiros o reconhecimento e o exato sentido desta verdadeira grandeza, falta o devido respeito na preservação dos símbolos de identidade nacional, entre os quais a soberania do idioma-pátrio.

Por justiça, devo registrar uma exceção brasileira: o futebol, que há mais de um século deixou de ser football ou soccer . Isso, certamente , graças aos puristas da língua e comunicadores do esporte que traduziram e aportuguesaram os termos originais para melhor compreensão por parte do povo. Como é sabido, foram os ingleses que em meados dos anos 1600 organizaram e criaram regras para esse esporte. Naturalmente, tudo em inglês. Charles Miller o introduziu no Brasil no ano de 1895 e o futebol se tornou popular, principalmente com o advento do rádio e mais tarde de televisão.

Foi a partir de então que a chamada ‘crônica esportiva’ passou a deixar a nomenclatura mais palatável para os ‘aficionados’. Com o tempo, os termos ingleses foram substituídos e hoje não mais dizemos ‘corner’, ‘center-foward’, ‘goal-keeper’ ou ‘referee’ para o árbitro e ‘coach’ para o treinador.

Bom seria se o exemplo fosse seguido em outras áreas.

Entretanto, o estrangeirismo grassa, alimentado pela internet, redes sociais, geração conectada ao modernismo e principalmente impulsionado pelas vaidades e frivolidades de quem acredita na força da palavra estrangeira por ser diferente.

A presente análise não deve ser entendida como xenofobismo linguístico, ao contrário, as línguas estrangeiras merecem respeito e sensata utilização, sem modismo ou vã demonstração de capacidade pessoal ou profissional. Afinal, o Português, língua neolatina, é mescla do latim, grego, árabe e outras. Que utilizemos os originais, os radicais, mas que aportuguesemos e abrasileiremos tudo o que for possível.

Os especialistas alertam que a importância e a soberania da Língua Portuguesa são diminuídas com o uso dos estrangeirismos. Concordo, pois entendo que um povo que não respeita, não valoriza e não defende seu idioma é um povo sem a essência de sua identidade.

Luiz Carlos Borges da Silveira é um médico e político brasileiro. Nasceu na cidade da Lapa, foi deputado federal, líder de governo, ocupando cargos importantes junto à câmara e o congresso nacional em Brasília. Foi Ministro da Saúde e atualmente é diretor Administrativo do BRDE.