Essa culpa não é minha

690

*por Claudia Queiroz

Logo que anunciaram a volta às aulas, a comunidade de mães começou a se mobilizar para abraçar a escola… Eu fui uma das primeiras a comprar material escolar e uniforme, mandei bordar o nome da filhotinha em todas as peças de roupa e já estou, inclusive, encomendando máscaras especiais com o rosto da minha filha impresso, a fim de evitar que seja trocada com outro amiguinho.

E se pegar COVID? A vida continua. E se passar para mim? A vida continua. E se tiver que enfrentar outras quarentenas em casa, quando alguém da sala pegar? A vida continua. Um ano inteiro passou e poucos perceberam que tudo continuou, só que com alguns cuidados extras de higiene e um pouco mais de consciência sobre a importância do outro.

Mães de filhos pequenos seguraram um rojão desde o início da pandemia. Crianças cheias de energia e dependentes da socialização para o desenvolvimento pleno. Recomendações do “fique em casa” e “proibido aglomerar” abreviaram o contato com o mundo a ponto de nem uma dorzinha de garganta ter acontecido em todo esse período.

Seria a falta da troca viral normal que acontece em todo o início de convivência com as “microbiotas” ou questão grave de limpeza dos utensílios e brinquedos das salas de aula? Independentemente de quem é a culpa, quando uma criança do Infantil pega uma virose, nenhuma mãe sai apontando o dedo para o primeiro doente da sala. Neste momento uma cuida da outra, todas se interessam pela melhora do enfermo e redobram-se as atenções com nossos filhos.

A prática das mães, e me incluo nessa, precisa ser aplicada fora deste ambiente de escola. Porque a “vida continua” com ou sem pandemia por coronavírus. No mundo todo a lição de esperança é maior que o medo. Mas por que só no Brasil a gente espera fórmulas mágicas para não sofrermos? E digo sofrermos porque somos muito resistentes às mudanças na rotina, perdas de zona de conforto ou evitamos, sempre que possível, lidar com o desconhecido.

Ninguém pode garantir que a vacina irá surtir efeito positivo. Está começando uma fase de testes ainda. Os vacinados serão observados e, se tudo sair conforme nossos lindos sonhos de voltarmos a ter a vida que tínhamos antes, daremos um olé na China. Ou não, porque a imunidade e as sequelas de um vírus como este transformam a sociedade como tantos outros na nossa história. No entanto, a vida continuou com tuberculose, HIV, poliomielite, peste negra, H1N1 e tantas doenças terríveis.

Mudam os cenários, os séculos ou os desafios, mas as mães permanecem com a fé inabalável. Porque nós sabemos que a vida continua a cada semana de febrão, feridas, inflamações e choramingos das nossas crias. Minha filha tem 4 anos e, quando começou a frequentar a escola tinha 2. Naquela época pegou uma das piores viroses que vi até hoje, chamada Mão, Pé, Boca. Dizem que é uma variação do sarampo, ou seja, um vírus mutante (como especialistas classificam o COVID-19), mas que não vem ao caso discutir.

Tivemos picos de febres acima de 40 graus a cada 3 ou 4 horas, diversas feridas nas mãos, pés e na boca que progrediam e se alastravam sem qualquer tratamento tópico. O pediatra contraindicava corticoides ou pomadas. Coçava, ardia, ela gritava e eu, só podia dar antitérmico, analgésico e beijinhos, além de fazer compressas de chá de camomila para acalmar a pele. Depois de 3 semanas, quando parecia que tudo estava bem, na rotina normal, longe dos perigos de contágio, respirando alguns dias inocentemente felizes, as unhas dos pés e das mãos começavam a cair. Ficavam os dedos em carne viva.

Triste né? Eu perco o fôlego só de lembrar… Mãe é imune, mas pai não. Meu marido pegou e teve tudo o que a filhinha teve. Mas é uma virose! Sim, foi complicado, desafiador, enfrentamos, e, pasme, a vida continuou.

A culpa não é de quem levou o vírus pra escola. Aliás, não existe culpa e precisamos parar de buscar culpados pelas nossas lamentações. Eu realmente espero que o coronavírus tenha sinalizado isso para todos. Acontece simplesmente, e será pior se a saúde da vítima do vírus estiver debilitada.

Há um tempo eu questionava que tudo virava processo legal nos Estados Unidos. Estamos vivendo época de imposições, certezas e brigas que vão além das divergências nas redes sociais. O Brasil está trilhando um caminho complicado neste sentido também, viralizando ódio, medo, brigas judiciais…

Antes de qualquer coisa, logo defendo. Não será culpa da escola se aumentarem os números de casos, nem dos governantes nas tentativas que eventualmente não estão dando certo, muito menos das mães que precisam ser menos exigidas pelos filhos ou da vacina, se não surtir efeito… É só a vida mesmo, com tentativas de acerto e erro, implorando para continuar com o COVID e com o que vier pela frente.

Claudia Queiroz é jornalista.