Em dezembro de 59, Juscelino nomeou Negrão de Lima embaixador do Brasil em Portugal.

Em dezembro de 59, Juscelino nomeou Negrão de Lima embaixador do Brasil em Portugal. As relações entre os dois países ainda estavam tensas, porque o embaixador anterior (de 56 a 59), o bravo e inesquecivel Álvaro Lins, havia dado asilo, na embaixada brasileira em Lisboa, ao líder da oposição portuguesa, general Humberto Delgado.

Alvaro Lins rompeu com JK, de quem tinha sido o primeiro chefe da Casa Civil e voltou para o Brasil e sua poderosa literatura, analisando a ditadura salazarista em um livro magistral: "Missão em Portugal".

Juscelino foi a Portugal: "As multidões acorriam para onde quer que se anunciasse a sua presença e à passagem do cortejo de automóveis, os transeuntes paravam para aclamá-lo", conta o então jovem diplomata, hoje acadêmico Alberto da Costa e Silva, em primoroso livro de memórias diplomáticas: "Invenção do desenho, ficções da memória" (Nova Fronteira).

Juscelino

Hospedado no Palácio de Queluz, JK saiu para doar mil volumes à biblioteca do Centro de Estudos Brasileiros, na Universidade de Lisboa. Alberto lembrou-lhe que o diretor do Centro Brasileiro era o poeta, romancista e crítico literário Vitorino Nemesio. Juscelino nunca tinha ouvido falar dele:

"É autor de uma obra importante, na qual se destacam dois livros de poesia e sobretudo um romance belíssimo Mau tempo no canal’, sobre as agruras e o heroísmo da gente dos Açores". E Alberto lhe resumiu o livro.

"Estou cansado. Vou tirar um cochilo e, quando estivermos a duas quadras do nosso destino, você, por favor, me acorde".

"Descalçou-se e dormiu quase imediatamente. Perto da universidade, chamei-o e ele se recompôs. A estudantada o retirou do carro já nos ombros. Quando Juscelino tomou a palavra, fiquei estarrecido. Voltou-se para Vitorino e fez o elogio de sua obra, detendo-se em "Mau tempo no canal", como se a tivesse lido e relido. As lágrimas desciam pelo rosto de Nemesio".

Salazar

"Na véspera de sua partida, Juscelino ofereceu um grande banquete no Palácio de Queluz, seguido de recepção. Um colega que acabara de chegar da Guatemala, Jorge Alberto Nogueira Ribeiro, recolhia os convites e entregava a seus portadores um pequeno cartão com o lugar à mesa.

Um senhor grisalho e discreto, sem condecorações na casaca e que entrara na sala sozinho, aproximou-se de Jorge Alberto, cumprimentou-o e encaminhou-se para a mesa do banquete. Jorge saiu atrás dele:

– Senhor, senhor, deixe-me mostrar onde estará sentado.

– Eu sei onde é o meu lugar".

O senhor era Salazar.

Crivela

Como Salazar, também na reunião do Senado, quarta-feira, para julgar Renan Calheiros, todos sabiam onde era o seu lugar, inclusive os que se esgueiraram por baixo da abstenção, como repelentes baratas. A "Veja" conta:

1 – "Na segunda-feira, o senador Sarney telefonou para Renan e disse que o risco de derrota aumentara consideravelmente. A mesma preocupação era compartilhada pelo ministro das relações institucionais, Walfrido Mares Guia. A contabilidade oficial de Sarney e Mares Guia apontava para uma divisão absoluta: 40 votos a favor e 40 votos contra a cassação".

2 – "Sarney e Mares Guia não tinham certeza (sic) sobre o voto do senador Marcelo Crivela (PRB-RJ), considerado um aliado, e informaram a Renan que era muito arriscado chegar à sessão com um palpite".

Miranda

3 – "Sarney, Roseana e Mares Guia viajaram para São Luís, onde participaram de um jantar promovido por uma empresa mineradora. Lá, encontraram o empresário Gilberto Miranda, um ex-suplente profissional, rico e conhecido em Brasília pelo excepcional talento de convencer certos tipos (sic) de pessoas com certos tipos de franqueza a mudar radicalmente de idéia".

4 – "A partir daí, as articulações para salvar Renan passaram a acontecer em ritmo frenético. Miranda disparou telefonemas para dezenas de senadores em Brasília, falou com vários deles, na maioria integrantes da base aliada".

Sarney e Walfrido

5 – "De volta a Brasília, Sarney e Walfrido decidiram pela tacada final. Ainda do avião, um Legacy da FAB, Walfrido conversou com o senador Aloisio Mercadante e Sarney passou o recado às lideranças no Congresso".

6 – "Com os petistas no bolso, bastaram algumas operações laterais (sic) para sacramentar a vitória de Calheiros. No plenario, o peemedebista Wellington Salgado avisava: "Tá rolando grana, muito argumento"!

PRB

A "Época" publicou toda a lista da votação secreta (sic). Está lá: "Absolvição, 40. Cassação, 35. Abstenção, 6 : PT 2, PMDB 2, PTB 1, PRB 1". O único senador do PRB é o falso "bispo" Crivela, do Rio de Janeiro. Como Salazar, também o Crivela "sabia o seu lugar".