ELA com E.L.A. – Viagens

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Maria Lucia Wood Saldanha

Um dos meus maiores prazeres sempre foi viajar. Costumava fazer isso nas minhas férias, geralmente para as praias do nordeste do Brasil mesmo, exceto em julho de 2010, antes de aparecer o primeiro sintoma, que fui para os Estados Unidos com meu filho, especificamente para San Diego, Los Angeles e Las Vegas.

No final do ano que recebi o diagnóstico, ou seja, em 2012, eu, meu filho, minha mãe e minha tia fomos presenteados com uma viagem de navio da Europa para o Brasil, com duração de quinze noites. Conhecemos Barcelona, Sevilha, Lisboa, Tenerife, ainda parando em Salvador e desembarcando em Santos. Nessa viagem eu estava com limitação somente nas mãos, mas eu conseguia fazer tudo sozinha, exceto algum movimento fino, como pinçar e amarrar calçado.

Já em abril de 2013, ocasião em que já estava afastada do trabalho, procurei fazer o que eu mais gostava, ou seja, viajar. Eu, minha mãe e minha irmã fomos de Recife a Lisboa, num cruzeiro de onze noites, onde conhecemos também Cabo Verde e Ilha da Madeira. Quando desembarcamos fomos para algumas cidades de Portugal, como Sintra, Cascais, Fátima, Nazaré, Batalha e Óbidos. Eu já não conseguia mais erguer os braços, como para vestir roupas e lavar os cabelos, e as mãos estavam mais limitadas, pois não conseguia usar a faca para cortar os alimentos. Nessa época comecei a depender de terceiros.

No final daquele ano fomos em oito pessoas, incluindo meu filho, minha irmã e meu cunhado, para Roma. Depois pegamos um navio em Gênova e viemos desembarcar em Santos, após dezessete noites, com paradas em Barcelona, Lisboa, Tenerife, Ilha da Madeira, Recife, Maceió, Salvador, Búzios e Ilhabela. Aqui eu já não tinha força para levantar o copo ou xícara até a boca, necessitando utilizar canudo para beber. Aumentava a dificuldade de me alimentar sozinha, necessitando de um objeto que prendia a minha mão ao garfo. Também como não tinha o apoio dos braços em caso de queda, geralmente eu andava apoiada em alguém.

Em outubro de 2014  fui para San Andres com meu namorado da época. Aí eu já fazia uso de andador, pois as pernas começavam a ficar afetadas. Para grandes distâncias usava cadeira de rodas. Não conseguia mais movimentar os braços e mãos. Necessitava dele pra tudo, como lavar o rosto, escovar os dentes, arrumar os cabelos, vestir e tirar a roupa, comer, tomar banho, e o mais constrangedor, vocês devem imaginar o que era. A voz já começava a ficar anasalada.

Em janeiro de 2015 foi a vez de um outro cruzeiro pela América do Sul, por sete noites. Saímos de Santos, com destino a Montevidéu, Buenos Aires, Punta Del Este e retornando a Santos. Fomos em dezesseis pessoas, entre familiares e amigos. Além de todas as limitações da viagem anterior, eu já fazia uso direto da cadeira de rodas.

Em dezembro de 2015  meu ex-namorado me presenteou com uma viagem, sendo sete noites em Aruba e sete noites num cruzeiro, com saída de lá e paradas em Colón no Panamá, Cartagena das Índias na Colômbia e Curaçao. As limitações eram maiores. Eu apresentava bastante dificuldade para falar e minha deglutição já não era como antes, pois demorava muito para comer e alguns alimentos de consistência mais firme eu necessitava evitar.

Algumas viagens foram organizadas por mim. Todas foram inesquecíveis e me diverti muito, apesar das limitações. Acredito que se eu não tivesse a ELA, não teria tido tantas oportunidades de diversão ou, então, priorizaria adquirir bens materiais, trabalhando muito pra isso, que certamente chegaria ao fim da vida, sem tê-la curtido tanto.


Maria Lucia Wood Saldanha
É nossa convidada de honra e assinará uma coluna semanal no site do jornal Diário Indústria & Comércio www.diarioinduscom.com.br que retratará e chamará a atenção para a realidade de pessoas que convivem com doenças, neste caso, terminal, além de servir como referência de dinamismo, fé, amor e exemplo de vida.

e-mail: mlucia.saldanha@hotmail.com

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