ELA COM E.L.A. – Uma queda perigosa

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Com o avanço da doença e o começo do comprometimento das pernas, o risco de quedas ia aumentando. Algumas foram mais significativas.  A maioria aconteceu em casa que, obviamente, machucaram. Mas a pior de todas aconteceu na rua.

Aqui em Curitiba há avenidas nas quais circulam exclusivamente ônibus pelas faixas do meio, o que chamamos de canaletas, e carros pelas duas laterais em sentido inverso. Certa feita, fui com minha mãe numa loja e ela estacionou o carro bem na frente, só que no outro lado da rua. Como a distância era pequena, resolvi não descer com o andador, já que me apoiaria num dos braços dela. Atravessamos a rua, entramos na loja e fizemos a compra rapidamente, pois já passava das dezoito horas e eu ainda tinha que escolher as roupas, para que minha cuidadora arrumasse minha mala, pois na manhã seguinte eu viajaria pra São Paulo, onde participaria de um simpósio sobre ELA.

Na saída, atravessamos a faixa onde trafegavam os carros num dos sentidos e paramos na calçada estreita que tem na divisa, para ver se vinham ônibus, sendo que minha mãe olhou para o lado dela e eu para o meu. Não presenciamos nenhum veículo de grande porte, todavia, um ciclista, em alta velocidade, vinha pela canaleta e acabou batendo na minha mãe, fazendo com que ela se desequilibrasse e eu desencaixasse do braço dela. Caí e como não tinha o apoio das mãos, que já estavam comprometidas, bati fortemente com a parte de trás da minha cabeça no chão, a poucos centímetros do meio fio, gerando uma poça grande de sangue no asfalto. Ameacei um choro, mas acho que a adrenalina do susto foi tão grande que quando vi que não estava doendo, já parei. Logo juntaram várias pessoas e só lembro da minha mãe, muito nervosa, dizendo para mim que não sabia o que fazer. Não sei o que houve, só sei que consegui manter a calma e disse para ela ligar para um dos meus irmãos que moravam com ela, pois seriam os que certamente estariam mais próximos. Naquela hora ela nem lembrou que eles estavam viajando. Só caiu em si quando um deles atendeu e a lembrou. Falei, então, pra ela ligar para o SIATE. Foi quando apareceu um rapaz que se apresentou como técnico em segurança do trabalho, dizendo que já haviam ligado. Ele ficou segurando firme na minha cabeça, para que eu não a movimentasse até que o socorro chegasse, enquanto fazia perguntas, a fim de verificar se eu estava orientada. Os ônibus passavam, desviando a aglomeração. Logo chegou uma moça muito atenciosa, se prontificando a ajudar, dizendo que me conhecia de vista, porque eu era cliente do salão que ela trabalhava.

Eu não tinha nenhum documento comigo. Foi então que achei melhor minha mãe ir até a minha casa, pegar um e ir direto ao Pronto Socorro, já que a moça disse que iria comigo na ambulância, se necessário. A essa altura o SIATE já tinha chegado e informado que iriam me levar ao Hospital Cajuru.

Chegando lá, já me transferiram para uma maca, me levaram para uma antessala, fizeram umas perguntas, verificaram os sinais vitais e me encaminharam para a fila do raio X. Ali era um paciente em condição pior do que a do outro. Tinha motociclista com fratura exposta, mulher baleada, bêbado com corte na cabeça e todo ensanguentado e outros acidentados diversos.

Depois do raio X, me colocaram num espaço com vários pacientes para atendimento. Do meu lado direito tinha um desacordado e do meu lado esquerdo estava o bêbado, com um corte grande na cabeça, que ficava perguntando para todos os técnicos de enfermagem que passavam, onde estava a sua bicicleta e que horas iria embora, porque tinha que trabalhar. Eu, diante daquele cenário tragicômico, comecei a conversar com o meu companheiro de PS, tentando puxar assunto pra ver se ele parava de incomodar.  Logo chegou um residente para me atender, raspando os meus cabelos que estavam próximo ao corte, para, em seguida, fazer a sutura. Na sequência foi atender meu mais novo amigo.

De repente entra minha cunhada com os olhos arregalados, muito preocupada, por se deparar comigo com a cabeça toda enfaixada. Quando me viu conversando e sorrindo, caiu na gargalhada. Pedi pra ela registrar aquele momento com uma foto, mesmo com um grande aviso no local dizendo ser proibido. Era necessário que o médico responsável passasse para me avaliar, para me dar alta ou encaminhar para o internamento, mas ele estava atendendo uma emergência mais grave e estava demorando muito para retornar. A essa altura ela tinha certeza que não viajaríamos mais. No entanto, voltou a ficar assustada quando eu lhe disse que viajaríamos sim.

Assim que o médico retornou, veio me atender. Na recepção estavam minha irmã, meu cunhado, meu irmão e minha mãe. Todos já estavam mais calmos, porque meu primo, que é médico, já tinha ido lá me ver também e os informou que eu estava bem. Eu praticamente implorei para o médico me liberar logo, porque eu teria que viajar na manhã seguinte. A essa altura alguns técnicos de enfermagem procuravam meu mais novo amigo, que havia pedido para ir ao banheiro e sumiu. Até hoje não soube se ele achou sua bicicleta, pois recebi alta e fomos embora.

Cheguei em casa era mais de meia noite. O porteiro me olhou assustado por me ver com a cabeça toda enfaixada. Mais perplexo ficou quando me viu sair às cinco e meia, com mala, arrumada, sem a faixa, rumo ao aeroporto.


Maria Lucia Wood Saldanha
É nossa convidada de honra e assina uma coluna semanal no site do jornal Diário Indústria & Comércio www.diarioinduscom.com.br que retratará e chamará a atenção para a realidade de pessoas que convivem com doenças, neste caso, terminal, além de servir como referência de dinamismo, fé, amor e exemplo de vida.

e-mail: mlucia.saldanha@hotmail.com

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