ELA com E.L.A. – Um certo bar

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Maria Lucia Wood Saldanha

Em meados de 2011 reencontrei uma amiga de infância e começamos a sair à noite. Passamos a frequentar um lugar simples, porém muito aconchegante, onde havia duas bandas que tocavam em ambientes distintos. Em meio a tantas preocupações em busca de um diagnóstico, lá era o lugar onde eu extravasava. Adorava sambar e acho até que eu fazia isso bem, sempre acompanhada de muita cerveja.

Com o passar das semanas acabamos conhecendo várias pessoas e formamos uma grande turma. Era cada um com sua personalidade marcante e diversa, mas que juntos nos completávamos para garantir a diversão.

Lá conhecíamos os donos, o porteiro, os seguranças, os músicos e os garçons. Conheci muitos lugares, mas o atendimento acolhedor que tem lá nunca vi em lugar nenhum. Chegava sexta-feira, ao término da novela, eu saía de casa, apanhava minha amiga e íamos para o lugar tão querido. No sábado estávamos lá de novo.  Foram raras as vezes que não voltamos para casa sem a companhia do sol.

Eram momentos infantis, de descontração e de irresponsabilidade, onde eu me desvestia da seriedade da profissão e entregava-me à alegria. Muitos risos e às vezes até uns choros de uma ou outra colega faziam parte do enredo. Nossos aniversários eram todos comemorados lá.

Quando recebi o diagnóstico, continuei frequentando o local, onde tive muito apoio. No primeiro semestre de 2014 diminui minha frequência, porque já não conseguia mais dançar como antes.

Alguns amigos não deixaram de manter contato, outros sim. Alguns vieram visitar-me, outros não. Entendo que talvez por não conseguirem me ver tão limitada fisicamente ou porque o interesse comum fosse só o bar.

Fui mais algumas poucas vezes, até utilizando andador. Em fevereiro de 2020, depois de mais de cinco anos de ausência, voltei lá, já com o corpo todo paralisado. Rever meus amigos e o local me trouxeram lembranças de um passado que não volta mais, mas que foi bem vivido.

Como é bom ter o que relembrar! Como é bom ter amigos! Como é bom ter um passado e um presente! O futuro é incerto para todos. A diferença é que a mim foi dada a oportunidade de poder refletir e valorizar. Pretendo voltar lá outras vezes, porque me faz bem, mesmo não podendo mais me embriagar e sambar com meu corpo, mas em pensamento posso fazer isso bem.


Maria Lucia Wood Saldanha
É nossa convidada de honra e assinará uma coluna semanal no site do jornal Diário Indústria & Comércio www.diarioinduscom.com.br que retratará e chamará a atenção para a realidade de pessoas que convivem com doenças, neste caso, terminal, além de servir como referência de dinamismo, fé, amor e exemplo de vida.

e-mail: mlucia.saldanha@hotmail.com

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