ELA com E.L.A. – Traqueostomia

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Crédito da foto: Ale Manchini

Traqueostomia é uma abertura na traqueia, com a finalidade de colocar uma cânula para a passagem de ar.

A traqueostomia sempre foi vista por mim, e acho que para a maioria dos pacientes, como o último estágio da doença. Tanto que uma grande parcela de doentes opta por não a fazer, preferindo ir logo a óbito a ter que se ver com um orifício no pescoço, ligado a uma máquina para poder respirar.

Em 2017 comecei a produzir muita saliva, sendo comum me afogar, algumas vezes por dia. A técnica de enfermagem chegava a aspirar minha boca em intervalos até inferiores a cinco minutos. Tufos de gazes nos cantos da boca, para segurar um pouco a saliva, já faziam parte do meu corpo.

Com o passar dos meses, além do excesso de saliva, comecei a cansar muito. Necessitava ficar a maior parte do dia só deitada de lado, pois era a posição que eu ficava melhor, diminuindo o cansaço e salivando menos. Usava o bipap (aparelho de suporte ventilatorio) somente algumas horas por dia.

Essa situação só foi ficando pior. Os batimentos cardíacos foram ficando cada vez mais acelerados, por conta do esforço que eu tinha que fazer para respirar. Junto com isso, a saturação (quantidade de oxigênio no sangue) ia baixando cada vez mais e, além de tudo, começavam os estresses com a empresa de home care. Lembro de algumas vezes ter sido acordada pela técnica de enfermagem da noite para ser ventilada, por conta da queda da saturação, mesmo dormindo com bipap.

Aquilo não era vida.  Recordo-me de ter falado para a minha cuidadora e minha cunhada que eu estava desistindo.  Andava deprimida. Achava que se a doença era progressiva, só ia cada vez ficar pior.

Achei por bem fazer uma consulta com uma fisioterapeuta respiratória para ver se os parâmetros do bipap necessitavam ser ajustados. Ela veio até minha casa, me avaliou e disse que pelo esforço que eu estava fazendo, utilizando daquela forma a musculatura acessória, eu deveria usar o bipap  vinte e quatro horas por dia.

Comecei a usá-lo direto, mas aquela máscara no rosto atrapalhava, pois eu salivava muito e necessitava aspirar a boca com grande frequência. Fora que tinham bastante dificuldade para ajeitá-la confortavelmente no meu rosto. Então, de súbito, optei pela traqueostomia, porque não aguentava mais tanto sofrimento, nervosismo e irritação.

No final da tarde do dia 28 de maio de 2018  fui internada e, na manhã seguinte, submetida à traqueostomia.

A adaptação à ventilação mecânica invasiva foi tranquila. Libertar-me daquela máscara me fez voltar a dormir bem. Mas eu ainda estava fraca. Precisava me adaptar a nova rotina e descansar de todo o estresse que eu havia passado.

Chegando em casa, a enfermeira do home care disse que, a partir de então, eu teria que só tomar banho de leito. Fazia cinco dias que eu estava só me banhando dessa forma no hospital e estava louca por um banho de verdade. Minha cuidadora do final de semana então tomou a frente e disse que eu iria era para o chuveiro. Desde então continua sendo assim.

Tentar estabelecer uma rotina pós-traqueostomia não foi fácil, pois eu tossia muito e achava que tinha secreção a toda hora, necessitando aspirar direto ou fazer cough assist (aparelho que força tosse com a finalidade de expelir secreção dos pulmões). Logo em seguida tive uma pneumonia, que foi tratada sem a necessidade de ser transferida para o hospital. Na sequência tive uma oclusão intestinal, necessitando de cirurgia de emergência, permanecendo por onze dias na UTI.

Então só pude estabelecer a minha rotina com a traqueostomia, mais de dois meses depois da colocação da cânula. Aos poucos fui aspirando cada vez menos, fui ficando mais forte, pois já conseguia ficar mais tempo sentada. E, a partir de então, só fui melhorando cada vez mais.

Assim como na gastrostomia, me arrependo de não ter feito antes a traqueostomia. Esperei sofrer muito para tomar a decisão. Hoje sou mais forte, mais disposta, enfim, uma nova pessoa. Já  me acostumei tanto que nem lembro que a tenho. Os benefícios trazidos com ela, especialmente voltar a ter lazer, superam algumas perdas trazidas com a doença.


Maria Lucia Wood Saldanha
É nossa convidada de honra e assinará uma coluna semanal no site do jornal Diário Indústria & Comércio www.diarioinduscom.com.br que retratará e chamará a atenção para a realidade de pessoas que convivem com doenças, neste caso, terminal, além de servir como referência de dinamismo, fé, amor e exemplo de vida.

e-mail: mlucia.saldanha@hotmail.com

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