ELA com E.L.A. – Sonho realizado

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Maria Lucia Wood Saldanha

Na matéria da semana passada eu contei das viagens que fiz após o diagnóstico da doença. Propositadamente, deixei de mencionar a melhor, mais emocionante, desafiadora e difícil de todas – a que fiz agora, no início de dezembro passado, para o Rio de Janeiro.

Alguns podem estar estranhando e questionando o porquê de uma viagem para uma cidade brasileira, não tão longe e que eu já fui várias vezes, ter sido melhor do que as outras que fiz.

Pois bem. Vou contar.

No final de 2017 meu filho foi aprovado na Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante do Rio de Janeiro, em quarto lugar, num vestibular onde concorreram cerca de 6500 candidatos. Na época ele pensou em não cursar, pelo fato de não querer me deixar morando sozinha em Curitiba. Mas eu jamais me sentiria confortável, se fosse responsável por interromper seu futuro. Pelo contrário, sempre o incentivei a ir atrás de seus objetivos.

Ainda, como eu estava muito mal de saúde, acreditava que sua transferência para outra cidade faria com que ele se tornasse mais independente e fosse se acostumando a viver sem mim, já que meu prognóstico, teoricamente, é desfavorável. Acreditava que não estaria viva para sentir a emoção de ver meu filho formado, apesar de querer muito. Era meu sonho.

2018 foi um ano bem difícil pra mim. Eu estava muito fraca, vivia praticamente só deitada, não conseguindo sequer ficar sentada por mais de quinze minutos. Fui submetida à traqueostomia, ficando 5 dias na UTI. Logo em seguida tive uma pneumonia e, por fim, ainda no primeiro semestre, passei por uma cirurgia de emergência, por conta de uma oclusão intestinal, tendo ficado 11 dias na UTI.

Depois da última internação, tudo mudou. Fui me adaptando à traqueostomia, o cansaço foi diminuindo, passei a ser cuidada por técnicas de enfermagem e cuidadoras competentes; enfim, voltei a ter qualidade de vida. E, com isso voltei a sonhar, planejando estar presente na formatura do meu único filho. Só que não contei nada a princípio pra ele, para que não criasse expectativa, caso eu não pudesse ir.

Em 2019 não tive nenhuma intercorrência. Em 2020 também não, mas estávamos em meio a uma pandemia, o que não garantiria nem a data da formatura e nem que eu e minha equipe estaríamos livres da Covid-19.

Mas quando se tem fé e força de vontade parece que tudo caminha para dar certo. Consegui  liberação médica e autorização do plano de saúde e da companhia aérea para viajar. E na data prevista fomos nós para a tão sonhada viagem, a qual fiz questão de organizar tudo (passagens, aluguel de apartamento, locação de carros, presente personalizado para ele e até lista de supermercado). Fomos eu, meu irmão, minha cunhada, cuidadora, 3 técnicas de enfermagem e fisioterapeuta. Quem via a bagagem imaginava que passaríamos uns 3 meses fora. Tive que levar equipamentos, aparelhos, dietas, materiais de uso diário e até cadeira de banho, porque a minha é reclinável e com encosto de cabeça e lá não havia nenhuma loja que alugasse uma com essas características, mas somente as simples, que para mim não servem, já que não tenho controle da cabeça e do tronco.

No avião já encontrei a primeira dificuldade. Foi necessário que minha técnica ficasse o voo inteiro segurando minha cabeça, para que não caísse. E foram várias outras dificuldades, mas todas superadas graças à competência e dedicação das pessoas que me acompanharam.

E no dia 2 de dezembro de 2020 lá estava eu na formatura do meu filho. Daquela pessoa que tem sido a motivação para eu despistar o prognóstico dessa terrível doença. A sua formatura era a coroação da minha luta.

Sabedores da minha condição de saúde, a organização do evento disponibilizou um local separado, bem como um responsável por nos acompanhar, juntamente com dois enfermeiros da Marinha.

Foi tudo muito emocionante, mas três situações mereceram destaque e levaram muitas pessoas às lágrimas:

A primeira foi no início da formatura, quando anunciaram que estava se aproximando o Comandante da Marinha, o Almirante de Esquadra Ilkes Barbosa Júnior. Fomos surpreendidos quando ele, quebrando o protocolo, ao invés de se dirigir ao lugar de honra, veio antes me cumprimentar, reconhecendo meu esforço para estar lá (https://www.facebook.com/photo?fbid=10215508417622595&set=a.10215508427462841).

A segunda foi quando meu filho veio correndo ao meu encontro, sendo o único que se ausentou do gramado, no momento em que saíram de forma, após entoarem o brado da turma (https://www.youtube.com/watch?v=6GElvG7m-Kc&feature=youtu.be).

E a terceira foi ao final, quando eu pedi para me deixarem em pé para abraçar meu filho, em sinal de agradecimento por ele ter me dado tantas alegrias na vida. Os braços não respondem mais, mas foi o melhor abraço que dei na vida, pois foi dado com a alma e com o  coração

(https://www.youtube.com/watch?v=xwqP2irg05A&feature=youtu.be)

E assim foi que realizei um sonho que achava ser impossível. Portanto, nunca deixem de sonhar.


Maria Lucia Wood Saldanha
É nossa convidada de honra e assinará uma coluna semanal no site do jornal Diário Indústria & Comércio www.diarioinduscom.com.br que retratará e chamará a atenção para a realidade de pessoas que convivem com doenças, neste caso, terminal, além de servir como referência de dinamismo, fé, amor e exemplo de vida.

e-mail: mlucia.saldanha@hotmail.com

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