Quando estava na sétima série, eu tinha uma excelente professora de português chamada Enete. Uma senhora rígida, muito culta, que ensinava muito bem, mas cobrava muitos de nós, seus alunos.

Dona Enete, além das provas escritas, fazia avaliações orais individuais e, ainda, redações que eram realizadas em sala de aula ou em casa.

Numa das vezes ela determinou que fizéssemos, como tarefa de casa, uma redação cujo titulo era “Seus olhos”.

Eu tinha 12 anos e estudava no período da manhã.  Geralmente chegava em casa, almoçava e fazia a lição rapidamente, para ir logo para a rua brincar com as amigas ou, então, ir para a piscina do clube que eu frequentava.

Sempre fui boa aluna. Prestava muita atenção nas aulas, aprendia rápido, sem necessidade de revisar conteúdos nas vésperas das provas. Mas confesso que redação era a minha pedra no sapato. E aquela, “Seus olhos”, até hoje me rende lembranças desagradáveis, mas um excelente aprendizado para a vida.

Naquele dia, na hora de fazer a tarefa, falei para minha irmã que não estava conseguindo sequer iniciar a tal redação, ocasião em que pedi a ela que me desse uma ideia. Ela, sempre muito prática, disse que era fácil e perguntou se queria que a fizesse pra mim. Lógico que aceitei e fui logo brincar.

Entreguei o dever de casa no dia seguinte. No entanto, por ocasião da devolução das redações, a tal professora deixou a minha propositadamente por ultimo e fez todo um discurso, que deve ter durado uns 5 minutos, afirmando que o texto estava excelente. A cada palavra meu ego inflava mais.  Chegou uma altura que eu estava me sentindo um gigante perante meus colegas. Foi aí que ela disse que eu mereceria um dez, se não tivesse sido uma transcrição de um poema de Vinicius de Moraes. Em um minuto o gigante virou uma mosca que, se pudesse, sairia voando dali, de tanta vergonha. O elogio se transformou num longo discurso de repreensão. Foi preciso muita dedicação e empenho, para recuperar aquele zero.

Analisando hoje, talvez eu não conseguiria escrever também algo sobre “Seus olhos” mas, com certeza, saberia escrever sobre ”Meus olhos”, já que são, juntamente com o sorriso, o que ainda consigo movimentar. Matéria para a próxima semana.