ELA com E.L.A. – Perda dos movimentos das mãos e dos braços

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Maria Lucia escreve todas as terças 

Conforme já mencionado, a doença teve início nos dedos, que começaram a não esticar, depois ficaram tortos, em forma de garras. No começo senti dificuldade para manusear o mouse, troquei de mão, aí dificuldade pra realizar alguns movimentos, como pinçar e amarrar sapatos. Na sequência fui perdendo força nas mãos e nos braços, ocasião em que levantá-los já não era com a mesma facilidade. Não conseguia mais vestir e tirar a roupa sozinha, lavar os cabelos, secar as costas e estender roupas no varal. Escrever também foi ficando cada vez mais difícil.  Utilizar a faca era impossível. As pernas começavam a dar sinais de fraqueza. Eu já estava aposentada. Meu filho estudava de manhã e não estava mais aguentando sozinho com tanta responsabilidade. Chegava a hora de eu arrumar uma cuidadora.

Apesar da contratação, eu sempre insisti em fazer as atividades próprias básicas com os membros superiores. As relativas à casa eu não me importava que outros fizessem; pelo contrário, nunca fui muito chegada aos afazeres domésticos. Preferia elaborar dez defesas a lavar uma louça.

Quando precisei de auxílio para lavar meus cabelos, me vestir ou despir, ou ainda, escovar os dentes, apesar de ninguém fazer do meu jeito, o fato de ser realizado por outra pessoa não me afetou psicologicamente. Todavia, lembro que me senti tão impotente quando estava sentada à mesa almoçando com a mão amarrada ao garfo, fazendo a maior força para comer e a cuidadora pegou outro talher e passou a me alimentar. Eu que sempre fui tão independente, agora era igualada a uma criança, pois não conseguia mais me alimentar sozinha.

Outra sensação ruim foi quando percebi que não poderia mais me limpar sozinha no banheiro. Minha mão não tinha mais força e eu tive que pedir para que o fizessem. Aqui o sentimento não foi de impotência, mas foi constrangedor.

Mas como tudo na vida é questão de adaptação quando se quer viver, em poucos dias acabei me acostumando.

As pessoas costumam reclamar de coisas tão insignificantes que se esquecem de valorizar ou não se dão conta da riqueza que possuem. Reclamam de terem que lavar louças, limpar a casa, passar roupas, embalar o filho pra dormir, obrigarem-se a dirigir, que esquecem que pessoas como eu, fariam de tudo para estarem nos seus lugares.

Não poder fazer mais nada com as mãos e braços não é fácil, mas foi superável. No entanto, hoje eu faria de tudo pra poder lavar uma louça e o faria bem feliz.


Maria Lucia Wood Saldanha
É nossa convidada de honra e assinará uma coluna semanal no site do jornal Diário Indústria & Comércio www.diarioinduscom.com.br que retratará e chamará a atenção para a realidade de pessoas que convivem com doenças, neste caso, terminal, além de servir como referência de dinamismo, fé, amor e exemplo de vida.

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