ELA com E.L.A. – Labilidade emocional

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Maria Lucia escreve todas as terças

Um sintoma comum aos pacientes de ELA é a dificuldade de controlar a expressão emocional, que se apresenta por episódios breves de risos e choros ou atitudes repentinas, que não aconteceriam acaso o indivíduo estivesse normal.

Tais alterações se manifestam de uma hora pra outra, ou seja, no mesmo momento em que a pessoa está feliz e sorridente, em questão de segundos pode ser acometido por sentimento de tristeza, que simplesmente não consegue explicar ou, quando consegue, não é tão proporcional ao motivo.

Não lembro ao certo como e quando esse sintoma começou. Só sei que fiz quem estava comigo passar muita vergonha por conta das minhas crises de riso e deixei muita gente desconcertada com minhas lágrimas.

Certa vez estávamos em três pessoas num voo retornando de Brasília, onde tínhamos ido a um encontro de ELA, e uma determinada situação engraçada me fez rir tanto que cheguei a lacrimejar e a ficar com faltar de ar. Quando tentava respirar, eu fazia um ronco tão alto que o comissário veio até nós para ver se estava tudo bem. Em outra ocasião, estávamos indo em quatro pessoas de carro para Gramado e procurávamos um lugar para almoçar. Passando por uma praia de Santa Catarina, havia vários restaurantes à beira mar e em cada um tinha um empregado pra fora, angariando clientes. Um deles explicava o cardápio, sensualizando, com voz de radialista. Eu comecei a dar gargalhadas na frente de todos. Tivemos que escolher outro restaurante, pois a situação ficou, no mínimo, constrangedora. Hoje, já traqueostomizada, não emito mais sons, mas as crises de riso continuam, de maneira silenciosa.

Já quanto ao choro, qualquer cena de novela ou comercial são suficientes para que lágrimas escorram pelo meu rosto. Não precisa ir tão longe; basta uma pessoa falar palavras carinhosas, que ele vem sem cerimônia. Uma simples despedida, um elogio ou ver alguém chorando são motivos para eu me acabar em lágrimas. Havendo motivo então, choro demais e chego a ter crises nervosas, onde o corpo enrijece e os dentes ficam rangendo.

Passar por estas constantes mudanças no estado de espírito é desgastante, tanto mental como fisicamente, já que não se tem controle sobre as emoções e sentimentos e, muitas vezes, se acaba agindo impulsivamente. Explosões e mau humor também podem levar a pessoa a ser mais agressiva e irritada. Medicações, como ansiolíticos e antidepressivos amenizam esse sintoma, mas não o apagam.

Seja sorrindo ou chorando, o importante é saber viver. Feliz aquele que tem emoções e sabe pedir desculpas quando comete excesso.


Maria Lucia Wood Saldanha
É nossa convidada de honra e assinará uma coluna semanal no site do jornal Diário Indústria & Comércio www.diarioinduscom.com.br que retratará e chamará a atenção para a realidade de pessoas que convivem com doenças, neste caso, terminal, além de servir como referência de dinamismo, fé, amor e exemplo de vida.

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