*por Claudia Queiroz

Ela tinha quase 1 metro de altura, mas já sabia dar colo, fazer guerra de beijos, torturar com cócegas e iluminar a alma de quem estivesse ao seu lado. Estou falando da minha filha Gabriella, na época com apenas 3 anos de idade. Como mãe babona que sou, imagino o dia em que a casa estiver arrumada, sem brinquedos espalhados, noites de sono ininterruptas, paredes com as pinturas intactas e livres das novas artes, mas com todo o tempo do mundo para fazer o que hoje não consigo…

Certa vez, num fim de tarde, eu cansada, com algumas unhas quebradas, hematomas no braço, joelho ralado pelas brincadeiras radicais que havíamos feito, quase choraminguei feito criança. Ela estava sentada na minha cama, abriu os braços e disse:

– “Vem, mamãe. Sei que você quer colinho!” Colocou a almofada para eu deitar a cabeça enquanto bagunçava meu cabelo molhado.

Durou alguns segundos aquele carinho, mas a magia do ineditismo aumenta qualquer validade, não é mesmo? Sem querer comparo essa relação de maternidade saudável com a história que ouvi sobre a filha de uma conhecida, quando tinha a mesma idade da minha e a caixa do supermercado, tentando puxar conversa com ela, disse:

-Então você é a irmã mais velha?

Prontamente a resposta veio:

-Velha é você!

Crianças são espelhos, não podemos jamais nos esquecer disso. Se tratadas com carinho, sentirão amor e não precisarão atacar para se defender. A beleza da infância está na pureza e pode ser sentida em todos os detalhes.

Educar vai além das ordens e limitações de cada fase. Acredito que tem muito mais relevância alguém crescer num ambiente cercado de exemplos. Eu mesma fui mais observadora que obediente…

Interpretando conflitos

Comecei a escrever este artigo há 2 anos, mas hoje decidi continuar… Recentemente tivemos uma festa de aniversário e alguns meninos de 5 anos brigaram. Depois dos socos, chutes e empurrões, algumas mães entraram em ação. Era num condomínio residencial e um dos envolvidos na confusão era morador. O garoto dizia que não tinha culpa e jurava que não havia encostado no que apanhou. La pelas tantas, a vítima tentou se vingar e a festa “pipocou”.

Percebi que o “acusado” mantinha-se imóvel “engolindo” as ofensas, enquanto balançava negativamente a cabeça, alegando não ter feito nada. Foi neste momento que me agachei e abracei o menino, dizendo que acreditava nele. Foi aí que ele chorou. Admirei a postura dele, que além de estar sem a mãe por perto, não saiu correndo como um fugitivo covarde da situação. Estava inteiro lá, enfrentando algo pra lá de desconfortável.

Por que estou contando isso? Porque nem sempre importam os fatos, quando o assunto é infância. Relevante mesmo é o que a criança sente. E ser julgado por algo que não cometeu, sem um adulto para validar uma possível injustiça, parecia cruel demais para normalizar essa espécie de “violência invisível” aceita num grupo, onde o “estranho” poderia carregar o ônus (uma vez que não pertence à mesma sala da escola).

Assim nascem os conflitos. Entre culpados e vítimas, todos sofrem. Cabe ao adulto responsável nomear a emoção e conduzir esses sentimentos para um aprendizado consciente.

Hora de voltar pra casa, fim de festa. A mãe do garoto que apanhou criticava o jeito do filho caminhar, o tropeço que ele deu a caminho da saída do condomínio e disse algo “mortal” pra mim.

-Nem pra descer a escada você serve!

Ups. Se fez eco no meu coração de adulta, imagina na formação de uma crença para essa criança. Ele levou outro “soco no estômago”, só que desta vez, da própria mãe, aquela que deveria proteger, acolher e demonstrar amor.

Nossos filhos não podem ser a expectativa do que planejamos para eles. São apenas o que conseguem, de acordo com os estímulos que recebem. Esta reflexão serve de GPS para compreendermos melhor o momento em que estão enfrentando, sem cobrarmos a perfeição idealizada.

Quantos de nós dedicamos tempo de qualidade para brincar com as crianças? Quem está disponível para decifrar os sentimentos delas e nomear o mundo que estão se atrevendo a viver? Como podemos cobrar que acertem sempre? Crianças são pessoas pequenas! Elas pulam na hora da refeição, derrubam o copo com suco de laranja na toalha limpa, tropeçam na escada, caem com frequência e se machucam quase que diariamente.

E se trocássemos uma situação dessas, onde por exemplo, uma mãe se distrai olhando o celular enquanto caminha e cai? Alguém julga? Ou acolhe prontamente? Por que muitos pais agem como se fossem malvados com seus filhos? Eles são apenas aprendizes, que acima de tudo, sentem. E sentem muito, porque crescem modelando a personalidade para serem “aceitos” por quem deveria exercitar o amor.

Amar se ensina amando. E nada mais acolhedor que aceitar as falhas de um filho (e por que não as dores de uma mãe?) com um simples abraço. É assim que a vida se renova e  enche de chão a esperança por dias melhores, pra sempre. PS: O bullying pode começar dentro de casa. É aí que mora um grande perigo.

Claudia Queiroz é jornalista.