Com os preços do trigo no mundo em níveis recordes, os moinhos brasileiros estão focando a safra nacional.

Com os preços do trigo no mundo em níveis recordes, os moinhos brasileiros estão focando a safra nacional, cuja colheita está apenas em seu início, disseram corretores.

Negócios com o trigo da Argentina, o principal fornecedor do Brasil, estão praticamentes parados, acrescentaram eles, observando que os altos preços do cereal também impedem qualquer compra no hemisfério norte.

Na bolsa de Chicago, referência internacional, os futuros atingiram recordes na quinta-feira, influenciando também mercados na Europa, devido a uma elevada demanda em meio a estoques globais apertados.

Mesmo no Brasil, as empresas estão com dificuldades de conseguir fechar negócios, com os produtores cautelosos em realizar vendas, esperando preços ainda melhores.

"Os moinhos estão voltados para o trigo nacional… mas o produtor trava negócios. Corre até a brincadeira de que hoje ele prefere vender bens, para pagar contas, do que vender trigo", disse um corretor de São Paulo.

Desde o início do mês, o preço do trigo do Paraná, que já estava em patamares elevados, subiu quase 10%, para R$ 630 por tonelada, seguindo os ganhos das cotações internacionais.

O Paraná, o maior produtor brasileiro, respondendo por mais da metade da safra nacional, é uma referência no mercado brasileiro.

A colheita no Estado, que deve produzir cerca de 1,9 milhão de toneladas, atingiu aproximadamente 10% da área plantada nesta semana, e poderia, em um primeiro momento, atender àquelas empresas que estivessem com estoques mais reduzidos.

O Brasil, com um plantio insuficiente para atender a demanda interna, deve importar aproximadamente 70% de seu consumo este ano, estimado em 10,5 milhões de toneladas.

De acordo com o corretor de São Paulo, produtores chegaram a pedir R$ 640 por tonelada, mas moinhos ainda não aceitariam pagar esse valor.

Um segundo corretor, este do Paraná, ponderou que embora os moinhos estejam de olho na firmeza do mercado, e no início da safra do Estado, também "não estão correndo atrás do trigo desesperadamente".

"Eles sabem que uma hora o produtor vai ter que vender, a tática dos moinhos é aguardar", disse a fonte, lembrando que o trigo superou o valor da soja no Estado, um grão que tradicionalmente tem valores superiores ao do cereal.

Um terceiro corretor, de São Paulo, que também pediu para não ser identificado, disse que o mercado interno está muito "psicológico".

"Quem não está comprado acha que o mercado vai cair, quem está comprado acha que vai subir mais. Eu acho que tem espaço para subir mais um pouco", afirmou a fonte, notando que haveria alguma possibilidade de queda com a chegada da safra argentina, entre novembro e dezembro.

A fonte lembrou que uma missão de brasileiros que esteve na Argentina concluiu que a safra do país vizinho poderá ser de 16 milhões de toneladas, bem acima dos 14 milhões estimados pelo Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).

Segundo o corretor, isso poderia gerar, em algum momento, uma pressão sobre os preços na Argentina e no Brasil.

De outro lado, a fonte destacou que mesmo o trigo do Paraná ainda não está livre de sofrer algum problema climático nas próximas semanas.