Angra
24 de junho de 2022
John Bull Pub
Florianópolis/SC

26 de junho de 2022
Ópera de Arame
Curitiba/PR

Por Clovis Roman
Fotos por Clovis Roman (Florianópolis) e Camila Kovalkzyc (Curitiba)

Há vinte anos, um certo jornalista ainda em começo de carreira decidiu fazer um site de tributo ao Angra, empolgado com os shows que havia visto no final dos anos 1990 e com a nova formação que logo lançaria um álbum chamado Rebirth. Este foi um enorme sucesso e manteve o nome do grupo em alta, teve recepção quase unânime dos fãs na época e sua turnê contou com mais de 100 datas ao redor do mundo.

Tanto a banda quanto o jornalista seguiram suas respectivas carreiras, até que em 2022 seus caminhos se cruzaram novamente tendo Rebirth como o tema central. O Angra, com a turnê Rebirth 20th Anniversary Tour, marcou um punhado de datas pelo Brasil, e no último final de semana passou por Florianópolis e Curitiba, e este que vos escreve esteve nestas celebrações. Nostalgia pura para ambos e para o público.

Uma porção considerável dos presentes nestas datas sequer chegou a ver a turnê original, realizada entre 2001 e 2002. Isto mostra a força de Rebirth, algo corroborado ainda mais pelo fato dos shows terem sido sold-out. Em Florianópolis, acompanhei a passagem de som, na qual repassaram “Millenium Sun” e “The Shadow Hunter” enquanto faziam os ajustes técnicos necessários. Depois, os músicos atendem os fãs que adquiriram o Meet & Greet (encontro no qual é possível tirar fotos e pegar autógrafos), enquanto a casa enchia e o Rage in my Eyes acertava os últimos detalhes para o número de abertura.

Rage in my Eyes

O grupo gaúcho abriu com duas músicas no formato heavy metal tradicional, com bateria, baixo, guitarra e vocais agudos. Falando em tradição, o Rage in my Eyes aposta na gaúcha, começando pela calça dos músicos das cordas na linha de frente, com calças pretas como fossem bombachas.

Rage in my Eyes (foto: Clovis Roman).

O vocalista, antes de “Sparks of Hope”, ensinou partes do refrão para a galera cantar, e foi prontamente atendido. Assim, nos versos “Entre adagas e esporas, Tordilhos a marcar este chão (Nossa estrada) / Campeando em sua jornada, Vagando sob a estrela-boieira (Campo afora)” o público cantou as partes entre parênteses. Isto cativou bastante, ainda mais que pouco à frente, mandaram “I Dont’ Want to Say Goodbye”, um tocante tributo a André Matos (ex-vocalista do Angra), falecido em 2019.  Fecharam com a pesada “Spiral Seasons”, do último EP Spiral, de 2021.

O quesito “tradição” mencionado acima, se aplica também ao fato de terem trazido ao palco um sanfoneiro, o experiente Matheus Kleber, que deu aquele toque de música tradicional gaúcha ao metal do Rage in My Eyes. O músico em questão não tocou apenas uma música ou outra, e sim, quatro, portanto, metade do repertório apresentado. Poderia ter ficado no palco o show todo, pois a sincronia entre os instrumentos era simplesmente espetacular.

Angra em Florianópolis

O Angra abriu o repertório com o grande clássico “Nothing to Say”, precedida pela intro “Crossing”, que já atiçou a galera em seus primeiros segundos. Pesadíssima, a música original do álbum Holy Land, é perfeita para começar um show. Depois, o single “Black Widows Web”, que tanto em sua versão de estúdio quanto ao vivo (presente no CD/DVD Omni Live) conta com a participação especial da cantora Sandy, fato lembrado por Lione ao anunciar a canção. Empolgante e cheia de partes, foi um grande momento para anteceder o grande destaque da noite: a apresentação de Rebirth na íntegra.

Bateria de Bruno Valverde (foto: Clovis Roman).

Uma simples intro, “In Excelsis” chamou “Nova Era”, um arrasa quarteirão power metal, cheio de solos histriônicos, linhas vocais grudentas e refrão primoroso, que a galera cantou junto. A belíssima balada “Millenium Sun” dá uma baixada abrupta no ritmo, com uma introdução delicada ao piano e performance primorosa de Lione, seguida por um andamento mais moderado voltado ao prog. Outro refrão glorioso é entoado a plenos pulmões por todos. A epopeica “Acid Rain” abre com um coro grandioso cujos versos cantam “Miserebus Sanctus, Precatoribus Ominus / Miserebus Sanctus, Omine Deo Sabbaoth”. Na plateia, entretanto, cada um cantava de um jeito e tava tudo certo. As melodias marcantes da extensa faixa mantiveram o ritmo em alta, este novamente segurado com a belíssima balada “Heroes of Sand”, um dos grandes clássicos da banda, que manteve – pelo menos até aquele momento – a excelência do Angra em fazer músicas lentas apaixonantes.

Rafael Bittencourt e Felipe Andreoli no John Bull (foto: Clovis Roman).

Uma versão visceral de “Unholy Wars” surpreendeu, com Rafael Bittencourt cantando os versos iniciais em português. Ele, que recém havia se curado da Covid-19, usou uma máscara dupla imensa, e claramente estava com a voz limitada devido a isto, mas como garra e resiliência é com ele mesmo, o músico seguiu em frente com uma classe absurda. Impressionante não se impressionar com a beleza e inteligência dos arranjos por ele criados e por sua maneira de tocar, que mescla momentos agressivos e em outros no qual mal parece que ele passa a palheta nas cordas de tão delicado. Rafael Bittencourt sempre foi o verdadeiro maestro do Angra, o elo de ligação entre todos os músicos que passaram pela formação e uma mente criativa brilhante.

Mantendo a métrica uma pauleira/uma balada, veio “Rebirth”, outra de inefável beleza que ocasionou um momento catártico. Mesmo com alguns impasses com o som, a banda e Lione passam por cima de tudo e entregam mais uma performance brilhante. A primeira grande surpresa da noite, para deleite dos fãs mais ávidos da banda – no qual me incluo, admito sem vergonha alguma – foi “Judgement Day”, tocada pouquíssimas vezes pelo Angra nos idos de 2022, e depois nunca mais resgatada nos repertórios do grupo. Os versos “One last minute passes by your soul / Just one minute more in the horizon” são irresistíveis, e funcionam muito bem ao vivo. A pegada intrincada, mergulhada no prog metal, é de um tremendo bom gosto.

Felipe Andreoli (foto: Clovis Roman).

Outra daquelas faixas grandiosas, “Running Alone” manteve o ritmo, mas serviu mais de passagem para outra surpresa: “Visions Prelude”, jamais apresentada em cima do palco até o começo desta turnê. Aqui, o italiano Fabio Lione tomou para si todas as atenções, ao cantar a música de maneira similar a original e, principalmente, por usar sua famosa voz de tenor em alguns versos finais. Arrepiante. Sem dar muita folga, revisitem a discografia ao tocar uma canção de cada disco lançado nestes trinta anos. Começaram com “The Course of Nature”, single de Aurora Consurgens (2006), um dos discos mais injustiçados do grupo; uma pérola ainda não descoberta por muitos. Esta nunca havia sido cantada desde que Lione entrou, há quase dez anos, assim como “The Rage of the Waters”, do Aqua (2010). Esta chegou a ser tocada eventualmente na última década, mas sempre com Rafael Bittencourt comandando as vozes. Aqui, Lione deu uma atravessada no meio, mas são coisas que podem acontecer em uma apresentação ao vivo.

Marcelo Barbosa (foto: Clovis Roman).

Ainda neste bloco, “Metal Icarus” veio do magnânimo Fireworks, disco cujo qual turnê aquele jornalista em começo de carreira viu duas vezes no final dos anos 1990. Nostalgia maior, impossível. A música, espetacular, acabou não agitando tanto, mas foi muito melhor ela do que, por exemplo, “Lisbon”, mais básica e já um tanto batida. Agora cometerei um crime aos olhos de muitos fãs: Temple of Shadows é aclamado por muitos como o melhor disco do Angra e “The Shadow Hunter” é um dos xodós da galera. No meu ponto de vista, é uma canção com momentos espetaculares, mas que poderia muito bem ter dado espaço para outro som mais forte, como “Winds of Destination”, por exemplo, que, inclusive, casaria perfeitamente com a voz e interpretação de Lione. Fechando, a belíssima balada “Bleeding Heart”, tocada de maneira elétrica (e não acústica como eles vinham fazendo no decorrer dos anos) foi de chorar de tão linda, e “Upper Levels”, um arregaço que funciona melhor no disco que no palco.

Barbosa, Valverde e Bittencourt (foto: Clovis Roman).

Se na parte do Rebirth a energia era altíssima e no bloco seguinte, mais contida – apesar de ter saciado os fãs mais conhecedores da obra do Angra – tudo virou uma loucura generalizada com a derradeira canção da noite, “Carry On”, clássico máximo dos caras. Falem o que quiserem, mas é uma música essencial no repertório, pelo frenesi que causa. A galera teve que pegar uma baita fila para deixar as dependências do John Bull Pub. Mas depois de um show extenso, intimista (afinal, a casa é pequena) e enérgico como este, quem poderia reclamar?

Angra em Curitiba (foto: Camila Kovalczyk).

Curitiba

Pulei Porto Alegre (rolou sábado, 25) e voltei a conferir o Angra no domingo, no palco da Ópera de Arame, um espaço espetacular para shows, que em outros eventos teve um som complicado, mas que nesta noite estava excelente. O local é bastante bonito e era um antigo sonho do grupo. Inclusive, durante a apresentação, o guitarrista e membro fundador Rafael Bittencourt disse ao público que, quem sabe, a banda volte para gravar ali um registro acústico e com orquestra. Plano antigo e que para o qual estamos desde já com os dedos cruzados, torcendo para que de fato se concretize.

Trend Kill Ghosts e Vanessa Rafaelly (foto: Camila Kovalczyk).

A abertura começou com o Trend Kill Ghosts, que não pude acompanhar por motivos de “estava trabalhando no credenciamento da imprensa neste momento”. Uma pena. Por relatos de amigos e de desconhecidos, um grande momento foi a participação da cantora lírica que é umas referências no Brasil na atualidade. Na última faixa, a cantora lírica Vanessa Rafaelly fez uma estonteante participação especial, reverberada por comentários logo após o set dos paulistas. Na sequência o Rage in my Eyes apresentou a mesma performance de Florianópolis, e obteve boa repercussão na galera, que nesta altura já estava ansiosa pelo grande nome da noite.

Angra estreando no palco da Ópera de Arame

O Angra retornou a Curitiba após três anos, com a atual e vitoriosa turnê Rebirth 20th Anniversary, que celebra um dos mais importantes álbuns da carreira de trinta anos da banda. O disco Rebirth foi lançado em 2001 e marcou um recomeço na história do Angra, que apresentava uma nova formação aos fãs na entrada do novo milênio. O trabalho conceitual era um reflexo das mudanças recentes e trazia uma aura motivadora e otimista. O resultado foi um imenso sucesso juntos aos fãs, que vinte anos mais tarde, ainda idolatram este trabalho.

Fabio Lione na Ópera de Arame (foto: Camila Kovalczyk).

Uma prova disto foi a presença maciça dos fãs curitibanos, que têm o prazer de acompanhar o Angra desde o começo da carreira. Desde 1994, ainda na turnê do disco de estreia, Angels Cry, a banda sempre volta à cidade com públicos expressivos. Desta vez, pela primeira vez no palco da Ópera de Arame, um ponto turístico e ambiente especial para shows, o grupo foi agraciado com lotação máxima, o que comprova a força de Rebirth, um álbum que passou no teste do tempo e permanece relevante não apenas para o Angra, mas para o Metal nacional.

Lione e Felipe Andreoli em Curitiba (foto: Camila Kovalczyk).

Com uma formação diferente daquela que gravou Rebirth, mas com a mesma garra e paixão, o Angra apresentou um show soberbo, no qual revisitou todos os álbuns da carreira, além de tocar Rebirth na íntegra e na ordem do disco. O entrosamento entre os músicos é quase palpável, assim como o clima de camaradagem entre os cinco integrantes. A performance tecnicamente soberba de todos foi amplificada por uma produção visual exemplar, com um telão que sincronizava imagens relacionadas ao tema das músicas, sidedrops e um som cristalino e bastante alto. Os fãs de Curitiba não deixaram por menos e responderam a altura, principalmente em clássicos como “Nova Era”, “Acid Rain”, “Rebirth”, “The Shadow Hunter” e “Nothing to Say”, entre tantas outras.

Angra tocou o clássico álbum Rebirth na íntegra (foto: Camila Kovalczyk).

A turnê é um amálgama de propostas: Celebrar os vinte anos de lançamento de Rebirth e também as três décadas de estrada do Angra, banda que é um dos maiores nomes do Metal brasileiro de todos os tempos. Estes elementos nostálgicos foram aprovados pelos presentes, e servem como a preparação para o próximo álbum de estúdio, que deve ver a luz do dia no próximo ano.

A Rebirth 20th Anniversary mostra o Angra celebrando um precioso legado na música brasileira de maneira honesta. Ao mesmo tempo que compartilha o passado com os fãs, o grupo olha para a frente, seguindo em frente com a perseverança que somente os grandes possuem. Independente de qualquer percalço, o Angra segue renascendo e assim será por anos e décadas a fio.

Repertórios:

Nothing to Say
Black Widow’s Web
Nova Era
Millennium Sun
Acid Rain
Heroes of Sand
Unholy Wars
Rebirth
Judgement Day
Running Alone
Visions Prelude
The Course of Nature
Metal Icarus
The Shadow Hunter
The Rage of the Waters
Bleeding Heart
Upper Levels
Carry On