Castigo que ilumina

436

*por Claudia Queiroz

Cuidado, quem vê essa carinha colorida, redonda e iluminada não imagina a batalha diária que é educar uma filha. Às vezes a maternidade cobra caro da maturidade e hoje foi um desses dias. Tive uns 10 “enroscos” com a filhinha, sempre linda, doce e divertida… Mas ela está crescendo e precisa compreender que toda relação é feita de ajustes. Certo? Deixemos o charme dela fora da questão!

Mentira não pode ser aceita neste contrato. Às vezes ela até tenta. Com a boca lambuzada de laranja, decidiu chupar a pastilha de vitamina C efervescente ao invés de diluir no copo de água. Disse que não tomou a dose e queria outra… Só que não!

Eu estava batendo suco natural com água de coco para produzir alguns geladinhos refrescantes, isentos de corantes e conservantes químicos. Era hora do almoço. Então ela blefou: quero dormir, estou com sono, não vou almoçar. Foi para o quarto e…, minutos depois estava cantando na cama, brincando e zombando do momento de estar com a família em torno da mesa. Aliás, único momento do dia que fazemos isso aqui em casa.

Fui obrigada a mostrar quem manda na área. Precisei dar aquele ultimato de mãe: “só sai do quarto quando quiser almoçar!” Ficou de castigo, presa, limitada, daqueles que “odiamos” nossa mãe, porque instantaneamente gera revolta. Mas isso tudo é treino…

Ela saiu do quarto com uma flor brilhante na mão para me dar. Pediu desculpas, jogou charme e me deu o presente. Não quis comer, então voltou para o castigo esguichando litros de lágrimas.

Tempos depois saiu novamente. Tentou negociar o almoço sem êxito. Voltou para a “prisão” e o duelo levou mais de 1h entre abre e fecha das “grades”, até que o apetite dela cedeu até que o combinado finalmente aconteceu.

Por que estou contando isso? Porque é de criança que a gente ensina limites. Ainda pequena é que minha filha precisa aprender a fazer e cumprir acordos. Só assim não sairá “caro” para ninguém. E como diz meu marido, se ainda criança ela não respeitar a mãe, na adolescência será como?

Sabemos que a vida nem sempre será doce… Mas em casa é que um filho precisa aprender esses limites, não na rua! Dizer não para um filho é prova de amor! Já escrevi sobre isso… Eu não quero que minha menina seja submissa, mas ela saberá que não é a “dona do pedaço” o tempo todo e que tem tudo aos pés dela quando quiser…

Mesmo eu me esforçando em oferecer o melhor, momentos como este, de frustração, reforçam nossos laços e nos tornam ainda mais atadas. Porque amor é assim… Se apertar sufoca, se afrouxar solta as pontas ou se perde… E ao crescer, ela aprenderá novos caminhos, desafios e privações, com a oportunidade de fazer escolhas por si mesma.

Com esse cuidado, não haverá fase em que minha filhotinha não tenha marcada em toda a sua história de vida o tamanho do amor que sinto por ela.

Doeu em mim essa dureza de colocá-la em castigo de forma tão rígida. Vê-la sofrer e não poder voltar atrás… Porém, pensar antes do problema acontecer é trazer super consciência para todos os dilemas da vida. Ela foi acolhida com amor ao sentir-se segura do que era para ser sua melhor escolha: almoçar ou dormir eram as opções válidas e não fugir do almoço para brincar no quarto. Eu estava ali para abraça-la e parabenizá-la pela superação.

Educar é lapidar uma pedra preciosa. Essa escultura acontece com Deus acima de tudo e pais acima de todos. Meu marido me ajudou a cumprir a tarefa. Fez o papel dele, orientando, alertando e apoiando. Isso é crescer em família, com todos juntos mudando de fase, construindo um futuro como presente.

Claudia Queiroz é jornalista.