Cannabis está na moda. Literalmente.

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A paixão pela moda, pela sustentabilidade e pelo Direito, e todos os dilemas sobre como tornar a cadeia de suprimentos dessa indústria menos desperdiçadora, mais ética e mais  limpa levaram-me, entre outras coisas, a desenvolver um profundo interesse pelas fibras e outras matérias primas que representem alternativas adequadas capazes de substituir o algodão convencional, o rayon e o poliéster, três das mais usadas na indústria e que também estão entre as mais intensivas em termos de demanda de recursos naturais em seu beneficiamento e de geração de resíduos não reaproveitáveis com baixíssima taxa de reciclagem.

Foi nesse contexto que o interesse pelo cânhamo surgiu.

O cânhamo e a maconha são plantas muito parecidas, já que pertencem à mesma espécie (cannabis sativa), embora sejam variedades originais de diferentes cruzamentos e seleções. O resultado foi o aparecimento de linhagens de plantas com características diversas, mas muito semelhantes entre si.

Ou seja, ambas pertencem ao mesmo gênero, apesar de distintas em termos de morfologia e de ingredientes ativos preponderantes.

A principal delas é que maconha é um tipo de cannabis sativa que foi cruzada e selecionada para aumentar a concentração de THC ou tetrahidrocanabinol, a substância euforizante, ao passo que o cânhamo tem uma quantidade insignificante de THC e é rico em CBD, o canabidiol, óleo com muitas propriedades e aplicações em indústrias como alimentícia, de bebidas e alimentos, por exemplo. Por isso é que a regulamentação, o cultivo e emprego de uma e de outra não seguem as mesmas regras.

Nos últimos vinte anos o crescimento exponencial do mercado de moda no mundo, fomentado pela explosão das redes sociais que incitam o consumo desenfreado, fez com que a indústria fashion se tornasse objeto de escrutínio pelos danos ambientais e sociais que vêm acumulando em sua conta, resultado de uma produção excessiva de peças de vestuário rapidamente descartadas em aterros e lixões, e das denúncias de abusos e graves violações aos direitos dos trabalhadores da indústria.

Além disso, o clamor pela sustentabilidade, em especial entre as gerações mais jovens, é uma pauta obrigatória e incontornável.

Nesse cenário emerge forte a necessidade da criação de novos modelos de produção mais preocupados com a sustentabilidade em suas dimensões ambiental, social e ética.

Para atingir esse objetivo, os gigantes do mercado passaram a investir na incorporação de tecnologias de inteligência artificial, blockchain, IOT, visando a aperfeiçoar processos produtivos, aumentar a transparência e reduzir o desperdício. Cresce também a pesquisa e desenvolvimento de novos materiais e fibras para substituir o tradicional algodão, por exemplo, presente em oitenta por cento da indústria, e intenso consumidor de água, fertilizantes e agrotóxicos.

Vítima injusta do forte estigma que acompanha o universo da cannabis sativa, mantida na marginalidade nos últimos setenta anos apesar de sua utilização pela humanidade ter registros de mais de quatro mil anos, o cânhamo vem consistentemente se provando uma opção confiável em vários aspectos.

O cannabis lifestyle não é novidade tão recente no mundo da moda.

Por estar sempre associada à transgressão e à ilegalidade, a palavra cannabis sativa nos remete diretamente aos “loucos anos sessenta”, e à imagem de camisetas tie-dye de péssima qualidade, chapéus baratos estampados com a icônica folha de sete pontas, também reproduzida em colares e chaveiros de plástico que mais lembravam quinquilharias compradas em quiosques de souvenires de viagens.

Porém, na última década a cannabis entrou no radar fashion, embalada pelo crescente movimento de descriminalização, em especial nos EUA após a edição em 2018 do Farm Bill, que reclassificou a planta e permitiu o plantio do cânhamo industrial, despertando o mundo empresarial para o enorme potencial econômico dessa planta e suas espécies.

Renomados estilistas, além estampar a imagem da simbólica folha em suas criações, têm optado também por empregar o tecido de cânhamo na produção de suas peças, em razão de sua durabilidade, sustentabilidade, biodegradabilidade e versatilidade ao ser mesclado com outras fibras.

O cânhamo industrial é plantado há muitos anos até mesmo em países com severa política de combate às drogas como a China por exemplo, segundo maior produtor do mundo. Na França, que ocupa a primeira posição e onde também o consumo e posse de maconha são proibidos, a indústria do cânhamo industrial segue a todo vapor, aquecida pela crescente demanda.

Inúmeras são as vantagens dessa opção. Além de utilizar setenta por cento menos água em seu cultivo em comparação ao algodão, já se sabe que o tecido possui propriedades antibactericidas, freando a propagação de microrganismos.

Por ser duas vezes e meia mais resistente do que fibras convencionais, o cânhamo, quando lavado, solta menos partículas as quais são biodegradáveis, diferentemente de outros tecidos que contribuem para o grave problema dos microplásticos lançados nos rios e oceanos.  Estudos e pesquisas vêm detectando que os benefícios são maiores do que se imagina.

Seja reproduzida em belos itens high fashion como o sexy vestido bordado com folhas de cannabis sativa criado em 2016 por Alexander Wang, usado pela belíssima Margot Robbie em um programa da TV norte-americana, estampando a bolsa de Rihanna, ou empregada como matéria-prima da indústria, fica evidente que a folhinha de sete pontas já está saindo da clandestinidade para ganhar as passarelas e as glamourosas páginas dos editoriais de moda.

Ana Fábia R. de O. F. Martins – Advogada Especialista em Direito e Negócios Internacionais e Moda.

https://culturemagazine.com/margot-robbie-cannabis-dress/

https://hollywoodlife.com/2013/08/13/rihanna-marijuana-clutch-weed-leaf-bag-pics/