Cânhamo x maconha: a desinformação como obstáculo à evolução para uma economia de carbono zero

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A transformação ecológica para uma matriz produtiva mais limpa é, antes de tudo, uma transformação econômica. Necessário e oportuno então, na pesquisa por possibilidades sustentáveis, lançar um olhar sem preconceitos para entender a trajetória do cânhamo, uma das plantas mais antigas da humanidade, e uma grande aliada dessa inevitável transição.
Cânhamo e maconha pertencem ambas à família cannabaceae, gênero cannabis sativa L. Suas diferenciações residem na morfologia, tamanho e concentrações de canabinóides.
A variedade de onde se extrai a maconha produz a substância alucinógena tetrahidrocanabinol (Delta9-THC) em altos patamares, podendo chegar a 30%. É um entorpecente, e seu plantio continua proibido em diversos países.
O cânhamo industrial apresenta teores inferiores a 0,3% de Delta9-THC, não possui substâncias euforizantes, e tem grande concentração de canabinol (CBD) cujas sementes, folhas, flores e caules fornecem um óleo de altíssima qualidade, com várias aplicações na indústria alimentícia, beleza, bebidas, farmacêutica e outras.
Do cânhamo, o “primo careta” da maconha, tudo se aproveita em várias cadeias produtivas: as fibras servem à indústria têxtil para a fabricação de vários tipos de tecidos para tapetes, cortinas, peças de vestuário, empregado sozinho ou mesclado a outros tecidos considerados mais nobres como linho, seda, por exemplo.
Não necessita fertilizantes ou pesticidas, não exaure a terra como Eucalipto, ao contrário, ajuda na recuperação do solo, utiliza 70% menos água do que a cultura do algodão e é uma fibra muito mais resistente. Incontáveis são suas virtudes.
A polpa produz celulose para a indústria do papel sem que seja necessário cortar uma árvore.
O Hempcrete é um concreto feito de cânhamo, excelente isolante térmico, resistente, antialérgico e capaz de sequestrar o dobro da quantidade de carbono gerada na construção civil.
E assim por diante.
Em 2013, o plantio do cânhamo ainda era proibido nos Estados Unidos, muito embora dez dos cinquenta estados já tivessem aprovado instrumentos legislativos próprios para regulamentar a cultura, mas esbarravam em obstáculos opostos pelo DEA (Drug Enforcement Agency), órgão federal de repressão e combate às drogas.
Isso ocorria porque a cannabis sativa, planta da qual o cânhamo é uma das variedades, foi praticamente banida dos Estados Unidos pelo Marihuana Tax Act of 1937, lei de suspeitíssimas motivações corporativas e econômicas, redigida por Harry Jacob Anslinger, considerado o ideólogo da política anti-drogas norte-americana.
Devido também a forte lobby internacional de Anslinger, muitos países onde o cultivo do cânhamo era legalizado, adotaram a proibição, dentre eles o Brasil.
Porém, segundo dados da história recente, as motivações de Anslinger eram bem menos nobres do que o combate às drogas ou a proteção da sociedade.
Seu indisfarçável, quase declarado racismo e xenofobia encontraram um grande aliado no magnata da mídia e investidor na promissora indústria da celulose, Willian Randolph Hearst, que estava empenhado em varrer do território americano a cultura do cânhamo industrial, cuja produtividade de papel por hectare superava em quatro vezes a de suas plantações de eucaliptos, segundo escritor Jack Herer em seus relatos sobre a cruzada contra a cannabis no início do século XX .
A partir da taxação quase confiscatória ao cultivo da cannabis, que teve seu plantio marginalizado, os pequenos agricultores ficaram impossibilitados de pagar os altíssimos tributos exigidos pelo Marijuana Tax Act.
E o cânhamo, cujo único crime é o de pertencer à mesma família de plantas da maconha, cai também em desgraça. Uma promissora cultura agrícola que quase desaparece.
Mas, a planta vem sendo redimida nos EUA, e em de 2014 o então presidente Barack Obama sancionou o Farm Bill, permitindo que instituições de pesquisa começassem a conduzir programas de cultivo e produção de cânhamo industrial.
O Farm Bill introduz a diferenciação legal do cânhamo e da maconha, e descriminaliza o cultivo do cânhamo industrial, definindo-o como planta de cannabis sativa L. com concentração de 0,3 por cento de THC ou menos, e nenhum componente psicoativo. O cânhamo passa a receber tratamento de commodity agrícola.
Desde então, a indústria do cânhamo e sua exploração comercial cresceram exponencialmente, com seu uso na produção de roupas, alimentos, medicamentos, produtos de bem estar, bebidas, etc.. O mercado é gigantesco e as previsões, as melhores possíveis, na casa de bilhões de dólares até 2022.
Canadá, França, Líbano, África do Sul, Uruguai, Colômbia, China e várias outras nações já despertaram para as virtudes dessa planta por tantos anos injustiçada.
Em tempo, estamos falando do cânhamo industrial, não de maconha.
O Brasil com suas condições climáticas propícias, tecnologia de ponta e tradição no agronegócio, deve amadurecer o debate e abrir os olhos ao potencial econômico gigantesco do cânhamo industrial para a sustentabilidade, geração de empregos, renda e desenvolvimento de que tanto precisamos, sob pena de perder, mais uma vez a chance de assumir o protagonismo do trem da história.
“Os fatos não deixam de existir porque são ignorados.” Aldous Huxley
#hempishope.

Ana Fábia R. de O. F. Martins – Advogada Especialista em Direito e Negócios Internacionais e Moda