Adélia Maria Lopes

O holandês Paul Verhoeven, em clima sensual, lança em Benedetta uma visão crítica à falsa moralidade, à manipulação da fé, à ambição política com verniz religioso, ao fanatismo. O título refere-se à freira Benedetta Carlini, que viveu (1591-1661) na cidade italiana de Pescara e, aos nove anos, foi entregue ao convento para ser esposa de Cristo. O roteiro, de Verhoeven e David Birke, é baseado na vida dela narrada no livro Atos impuros (Immodest Acts: The Life of a Lesbian Nun in Renaissance Italy, 1986), da historiadora inglesa Judith C. Brown.

Classificado como “ousado” e “transagressivo”, o filme foi exibido nos festivais de Cannes, Londres, do Rio, e em São Paulo, no 29o Festival MixBrasil, do qual saiu com o prêmio de público de melhor produção estrangeira. Está agendado para estrear no Brasil, com distribuição da Imovision, nesta quinta dia 13 de janeiro, em 40 salas de cinema no Rio de Janeiro, São Paulo, Niterói, Porto Alegre, Recife, Brasília, Salvador, Belém, Belo Horizonte, Campinas, Curitiba, Fortaleza, Florianópolis, João Pessoa, Maceió, Natal e Vitória.

O filme usa o sexo (explícito) entre Benedetta (vivida pela atriz belga Virginie Efira) e sua protegida, a noviça Bartolomea (Daphne Patakia), para atiçar reflexões sobre o êxtase do poder conquistado graças à dominação da fé e do corpo feminino.

Verhoeven se revela um bem-humorado iconoclasta, apesar do filme ser classificado como drama.

A manipulação em nome da fé é escrachada desde a primeira cena, onde se avista o primeiro “milagre” de Benedetta criança, a caminho do convento para se tornar a esposa de Cristo. Em seguida já se tem os diálogos das negociações de dote entre o pai da futura noiva e a abadessa do convento (Charlotte Rampling). Religiosidade? Não, negócios da fé.

Inteligente e fervorosa, Benedetta cresce no convento, aceita Jesus como esposo, e tem visões nada católicas com ele. Devido a essas visões e estigmas da cruz, a freira ganha uma companheira de cela, porém passa a compartilhar seus desejos com ela, a pobre Bartolomea. Sua intimidade com Deus transforma Benedetta em madre superiora, mas advém então as intrigas conventual e episcopal ao meio da peste e à luz da Santa Inquisição.

Blasfêmia?

Em julho de 2021, exibido em Cannes, o filme foi acusado de blasfêmia. Para a imprensa, o octogenário Verhoeven rebateu: “Eu realmente não entendo como pode ser blasfemador em relação a algo que realmente aconteceu. Não se pode simplesmente mudar a história depois do fato. É possível dizer se foi certo ou errado, mas você não pode mudar a história. Creio que a palavra blasfêmia, nesse caso, para mim, é idiota.”

Ao Hollywood Reporter, o cineasta holandês disse que sua intenção nunca foi provocar, ao tocar em temas tão controversos. “As imagens aparecem na minha mente. Se eu estou interessado em as ver, o público também está. Não creio que o filme seja escandaloso, ao menos não na Europa Ocidental”. E, citando seus próprios filmes, observa: “Talvez os americanos o vejam de outra forma. Há mais puritanismo nos EUA. Eu vi isso acontecer com Instinto Selvagem, e ainda mais com Showgirls”.

Olhe para trás

Benedetta, ao seu modo, remete a Não Olhe Para Cima, ao arrasar com ironia os fanáticos religiosos e negacionistas. Há uma cena exemplar: a abadessa isola a cidade para protegê-la da peste, mas o representante do Vaticano força a entrada levando a morte para dentro. (Hoje a praga é o coronavirus). Verhoeven apresenta um Jesus musculoso, até sensual, e expressa em diálogos eloquentes e engraçados de como o clero e a sociedade enxergam o corpo feminino (diabólico), a mulher como objeto de barganha (até com Deus) e o sexo como pecaminoso.

A cena mais iconoclasta é da imagem da Virgem que se torna brinquedinho de prazer entre as duas freiras. O ar de indiferença de Benedetta e seu conselho para aparar melhor as arestas da estatueta é um ícone de ironia, digna de entrar para a história do cinema de Verhoeven.

Benedetta se passa em tempos outroros, revivendo até a fogueira da Santa Inquisição, porém é muito atual, tal qual a sátira política Não Olhe Para Cima, que tem por base a ciência. O cerne do filme do cineasta holandês não é o lesbianismo, mas, sim, o exercício do poder. E o espectador até poderá se extasiar com o visual intimista, mas o que faz coceira no cérebro é o conteúdo satírico, meio Pasolini século XXI (exagero meu?).