As lágrimas de Deus e o aquecimento global – a delicada pérola e o risco de desaparecimento

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Admiradas há milênios antes da era cristã, as pérolas eram, primordialmente, um ornamento próprio dos homens da nobreza. Na Índia dos marajás, portá-las era sinônimo de altíssima posição social, poder, plenitude e pureza. Na Europa, serviram de adorno masculino em períodos como o Renascimento, imortalizando a figura de George Villiers, Primeiro Duque de Buckingham, sempre retratado com muitas voltas em seu pescoço. Até que as mulheres se apoderem definitivamente da preciosa gema do mundo animal.

Belas ao mesmo tempo que raras, as pérolas naturais passaram a adornar imperatrizes, princesas e duquesas, e em razão de sua escassez, passaram a fazer parte das jóias das coroas de reinos da Europa.  Envolto em mistério até hoje o desaparecimento do colar de pérolas da imperatriz Sissi da Áustria logo após seu assassinato, em 1898.

Coube à imortal iconoclasta da moda, Gabrielle “Coco” Chanel a popularização das pérolas como hoje conhecemos.  Dona de um lindo colar de gemas naturais, presenteadas a ela pelo então Duque de Westminster, Chanel passou a usar também as recém surgidas pérolas cultivadas, algo impensável até então, pois, eram objeto de preconceito de joalheiros e especialistas. Ao lançar a moda da profusão de colares de pérolas sobre roupas sóbrias, fez com que se tornassem objetos de desejo absoluto difundindo seu amplo uso, transformando-as em um clássico fashion inevitável, e peça indispensável do acessório feminino.

Malgrado sua popularidade num mercado de joalheria cada vez mais aquecido, estudos vêm observando que as mudanças climáticas podem ser de enorme nocividade para as ostras produtoras de pérolas, sejam naturais – extremamente raras atualmente – sejam cultivadas em água doce ou salgada.

Conhecidas como os canários do oceano, pois, da mesma maneira que os pássaros detectavam gases exalados de minas subterrâneas, as ostras são as primeiras a sofrer quando a água passa por alterações, são purificadores naturais de água, já que absorvem substâncias como  nitratos e amônia, além de serem importantíssimo elemento da cadeia alimentar marinha, indispensáveis à preservação da biodiversidade do oceano.

Fazendas de cultivo de pérolas são lugares impressionantes, pois, a água em volta das ostras deve ser extremamente limpa. Por isso, o futuro da indústria de cultivo de pérolas está correndo perigo cada vez maior. As mudanças climáticas causadas pelo aquecimento global possuem efeitos mais nefastos do que se pode perceber.

Enchentes em regiões inimagináveis, secas severas em terras outrora férteis, abalos sísmicos e furacões interferem em seu desenvolvimento. Ostras são seres frágeis que suportam apenas os movimentos naturais dos mares.  Condições extremas como secas, inundações e outros movimentos afetam sua sobrevivência.

Ostras e outros bivalvos subsistem em águas de PH neutro. A crescente quantidade de dióxido de carbono no ar que é filtrado pelos oceanos, verdadeiros pulmões do planeta, as afeta severamente, trazendo enorme risco de vida às ostras férteis. De fato, a água acidificada em conjunto com a má qualidade do ar, que também é outra consequência deletéria do aquecimento global, cria a pior das condições para essas formas frágeis de vida. Por outro lado, o desequilíbrio ácido do PH da água danifica a concha das ostras, prejudicando sua saúde e às vezes até resultando em morte.

Para sobreviver, as ostras precisam de água limpa e livre de poluição, sem variação no nível de PH. No entanto, no cenário atual, a produção de pérolas naturais, já raríssima, poderá desaparecer, dado o nível de comprometimento da água e do ar. Os agricultores de pérolas fazem o possível para manter suas áreas de cultivo limpas e saudáveis, tarefa ingrata em um cenário de crescente contaminação.

A ameaça do desaparecimento das pérolas pode parecer uma frívola preocupação diante de tantas outras aflições mais graves da humanidade.  Porém, é um dos desdobramentos de onde o desequilíbrio do ecossistema pode nos levar. Os impactos ambientais têm reflexos nos direitos humanos. O aquecimento é global, sofreremos todos, mas, em maior escala aqueles em estado de vulnerabilidade.

Ana Fábia R. de O. F. Martins – Advogada, especialista em Direito e Negócios Internacionais