A moda deve fazer mais do que expressar solidariedade protocolar

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Em cento e cinquenta e três anos de trajetória, pela primeira vez a mais longeva e tradicional publicação de moda norte-americana, a Harper´s Bazaar nomeou uma mulher negra para o cargo de Editora Chefe.

Um marco histórico em se tratando do mercado da moda onde questões como diversidade, equidade e representatividade encontram raras ou nenhuma manifestação, em especial quando se fala em posições mais altas na hierarquia das grandes marcas ou outros players de destaque nesse universo.

Samira Nasr, nascida no Canadá, atual Diretora de Moda da também prestigiada revista Vanity Fair, filha de pai libanês e mãe trinitário-tobagense (gentílico para os nascidos em Trinidad e Tobago), gravou um vídeo veiculado nas redes sociais após sua indicação, ressaltando a importância da representatividade e equidade.

A inédita nomeação vinha sendo negociada há alguns meses, e ocorre no mês imediatamente seguinte ao assassinato do ex-segurança negro George Floyd, da explosão de protestos nos Estados Unidos e no mundo demandando por igualdade racial, menos preconceito e reformas na estrutura da policial naquele país.

A tragédia catalisou manifestações no mundo todo, campanhas de apoio e doações para a causa negra em redes sociais, discussões nos grandes veículos televisivos, adesão de artistas e intelectuais para discutir soluções a um problema cujo debate ainda recorrente põe em evidência a falta de evolução da sociedade sobre os mais fundamentais princípios de solidariedade, empatia e amor ao próximo, malgrado o exponencial desenvolvimento tecnológico e científico que a humanidade atingiu.

Muito obstante as discussões e debates acalorados aflorem de maneira mais notória em momentos de indignação, motivados por eventos trágicos como a morte de um homem negro nas mãos de policiais brancos, documentada em vídeo e viralizada pelas redes sociais, episódios de discriminação, racismo e injúrias raciais são corriqueiras na rotina da vida de pessoas de cor.

No mês de março, um pouco antes do lockdown em Paris, cidade na qual se encontrava trabalhando por ocasião dos desfiles da temporada do Fashion Week, Tiffany Reid, uma elegante Diretora de Moda de um importante conglomerado de marcas norte-americanas relatou triste episódio de racismo quando foi devolver algumas peças de roupas ao escritório de uma marca que as havia cedido para produção de fotos, localizado no 9º Arrondissement, região cultural importante da cidade Luz, onde se localiza, por exemplo, a famosa Opéra Garnier.

Algumas moradoras adentravam no edifício juntamente com Tiffany e propalaram contra ela ofensas racistas, como afirmações de que ela não poderia estar ali, pois “(…)têm havido roubos neste prédio e pessoas como você roubam”.

Uma mulher bela, impecavelmente vestida e bem sucedida teve contra si dirigidas ofensas e injúrias raciais, tendo sido implacavelmente julgada tão somente pela cor de sua pele.

O ODS número 10 da ONU, no seu item 10.2 define como meta para 2030, empoderar e promover a inclusão social, econômica e política de todos, independentemente da idade, gênero, deficiência, raça, etnia, origem, religião, condição econômica ou outra. Ao que parece um objetivo que não será de fácil atingimento.

A moda pode fazer mais do que simplesmente expressar solidariedade por meio de campanhas episódicas. O discurso dos grandes C.E.O’s não corresponde à cor dos organogramas. A demanda por equidade e inclusão não é fruto de um discurso ativista extremado, mas tão somente da constatação de um fato. O mundo da moda tem muito a evoluir em várias pautas. Inclua-se na longa lista o racismo, a falta de representatividade e discriminação em vários níveis. Coragem, Samira.

Ana Fábia R. de O. F. Martins – Advogada, Especialista em Direito e Negócios Internacionais e Moda.