A circularidade vai mudar o mundo

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Meu avatar no Evento de Moda Circular em realidade virtual

Sempre que posso relembro a frase do executivo Carlos Torres Villa, ao afirmar em um evento do Banco espanhol Bilbao Vizcaya, que a mudança climática causada pelo crescente aquecimento global tem sido o maior elemento de disrupção das últimas duas décadas, face às nefastas consequências sociais, humanas e ambientais que acarreta.

À mudança climática, em especial neste 2020 Anno Domini, forçoso acrescentar a pandemia da Covid-19, causada pelo popularmente chamado de coronavirus, de nome científico mais complicado de SARS-CoV-2, como acelerador incontornável das mudanças de paradigma que a humanidade será obrigada a encarar nos próximos e imediatos anos que se seguirão.

A celebrada consultora de tendências Li Edelkoort diz esperar que o coronavirus derrote o vírus da ganância. Em resumo: não há mais tempo para esperar.

Alguns setores foram atingidos mais duramente que outros, em especial o da moda, forçando uma reflexão ainda mais profunda sobre como pensamos, fazemos, consumimos e tratamos os resíduos dessa indústria, tanto os gerados no pré-consumo, como aqueles produzidos pelas roupas, sapatos e acessórios que não queremos mais, dos quais, o alarmante percentual de oitenta por cento vai parar em lixões.

Não é o caso de demonizar tão somente o modelo de produção de moda chamado fast fashion que, de fato, levou à precarização extrema da cadeia produtiva global, cujos beneficiários – as grandes marcas de moda rápida – agiram e ainda agem com cumplicidade criminosa em parceria com governos locais corruptos, tirando proveito de legislações lenientes que fecham os olhos às violações de direitos sociais, ambientais e de direitos humanos, criando um contexto produtivo tenebroso.

De fato, o fast luxury fashion,  também tem considerável parcela de responsabilidade, pois, segundo a consultora norte americana de branding Ashley Lauren (artigo publicado em: https://medium.com/swlh/how-luxury-fashion-became-simple-fast-fashion-c24dc8a1c001) (…)A moda de luxo literalmente se tornou uma moda rápida, apenas com um preço mais alto totalmente disponível para qualquer pessoa, quer tenha dinheiro em sua conta bancária ou um cartão de crédito com um bom limite”.  E, como marcas de luxo criam desejo, o que dizer do odioso mercado das “réplicas”, nome elegante para falsificações e cujo lucro financia o tráfico de drogas e de pessoas e produz graves violações contra direitos humanos e meio ambiente.

A solução certamente não será fácil. Alertar para os excessos que o consumo vem causando ao planeta não basta. A moda é a indústria do fascínio e da beleza. Jeremy Scott, o celebrado estilista da marca  Moschino disse que a moda tem o poder de  nos trazer alegria, de colocar um sorriso no rosto das pessoas. A moda não é para poucos, a moda é para todas as pessoas, completaria Kenzo, que nos deixou aos oitenta anos.

Parar de produzir moda é impensável. Não vai acontecer.

Calcula-se que até 2050 pelo menos vinte por cento da população melhorará seu poder de compra. O que acontecerá se o modelo linear de economia e consumo baseado em extrair – produzir – descartar for mantido?

Essa preocupação em especial quanto à indústria da moda vem sendo debatida em vários níveis em que são partes não só as grandes marcas mundiais como o poder público, ONGs e entidades supra nacionais como a ONU e suas Agências, já que a indústria emprega milhões de pessoas no mundo.

Os números apavorantes aumentam a urgência da colaboração para evoluir e transformar modelos ultrapassados. É necessário redesenhar a moda para uma nova era de maior sustentabilidade, digitalização e mudança para uma economia circular centrada em reusar-reduzir-reciclar.

Tive a imensa felicidade de neste mês de outubro ser convidada para participar do primeiro seminário de moda circular totalmente em realidade virtual (https://www.circularfashionsummit.com/), uma experiência única, além do digital, para um momento também único na história.

O evento teve lugar nos dias 3 e 4 de outubro, acontencendo concomitante com a mais tradicional das semanas de moda, a de Paris.

A reprodução inteiramente em realidade virtual do Grand Palais, a “casa” da marca Chanel nos desfiles na cidade luz, era acessível apenas por meio da plataforma AltSpace instalada em óculos para interação em realidade virtual, uma inovação inédita, ou melhor, disruptiva para eventos dessa natureza.

Discussões com os líderes do setor de moda e inovação sobre o papel da tecnologia no novo sistema de moda, a sustentabilidade e a importância do storytelling dos novos produtos; como transformar a circularidade em negócios e desenhar o novo papel catalisador da moda, o desafio de adequar a indústria aos ODS da ONU.

Instigantes e provocativas discussões evidenciando que a revolução na indústria da moda para a mudança para um novo paradigma mais sustentável envolverá necessariamente a tecnologia, a circularidade, a cooperação e o cuidado com as pessoas e com o planeta.

Ana Fábia R. de O. F. Martins. Advogada Especialista em Direito e Negócios Internacionais e Moda.

Jeans de cânhamo tem apelo sustentável mas, no Brasil, a proibição ao plantio é empecilho

A calça jeans é um dos itens de moda mais vendidos no mundo. Estima-se que cinquenta por cento da população mundial possua ao menos um par no armário, sendo o Brasil um dos maiores produtores de denim no mundo, devido ao tamanho de sua indústria têxtil.

Por outro lado, também é uma das peças mais intensivas em consumo de água, energia e produtos químicos. E, o algodão, fibra majoritariamente  empregada na confecção do jeans, é de todas as fibras naturais usadas na indústria têxtil, a mais danosa ao meio ambiente, já que o algodão convencional emprega enormes quantidades de agrotóxicos e fertilizantes, exaure demasiadamente o solo, e necessita também volumes grandes de água em sua cultura, transformando-o em uma das piores pegas hídricas entre os cultivares.

Ou seja, a cadeia produtiva do jeans é problemática em toda a sua extensão: desde o cultivo da fibra até a entrega da mercadoria ao varejista.

Em razão da necessidade de um apelo à sustentabilidade na cadeia produtiva da moda, responsável por impactos negativos ao meio ambiente comparáveis aos da indústria petrolífera, as empresas do setor já estão buscando alternativas mais eco-friendly.

Surge a opção do cânhamo industrial, planta da espécie cannabis sativa, a mesma da família da maconha, com o mesmo DNA, mas com alguma variação morfológica, e que tem sido usada há muitos anos por vários países da Europa, sendo a França e a China, esta última mesmo com suas severas políticas de combate às drogas, os maiores produtores do mundo.

No Brasil, seu plantio é proibido, o que nos impede, mesmo sendo a quarta maior indústria têxtil do mundo, de despontar na vanguarda da sustentabilidade na moda. A pioneira indústria  brasileira de denim Vicunha está sinalizando que deverá empregar o cânhamo misturado ao algodão em seus produtos, vez que ao que parece, a importação do tecido não seria vedada por lei.

A fibra de cânhamo, por sua durabilidade e abundância, era usada desde a época das navegações de descobrimento, em fins do século XV, para a confecção das velas dos navios dos exploradores. São inúmeras suas aplicações para a indústria têxtil, calçadista, construção civil, biocombustíveis, plásticos, etc.

Por sua vez, a planta cannabis sativa é conhecida da humanidade há mais de cinco mil anos.

Que o preconceito não impeça discussões construtivas sobre o tema.

Para saber mais: https://www.intelligentliving.co/levis-hemp-feel-like-cotton/