A catástrofe ambiental anunciada dos descartáveis

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Por força da pandemia da COVID-19 que vem desafiando a ciência há mais de seis meses, e cujo número de vítimas no mundo já passa de um milhão de pessoas, muitas situações e novas formas de fazer as coisas se introduziram em nossas vidas, em um conjunto de comportamentos batizados de “novo normal”, que pelos desafios que representa, pelas severas restrições de mobilidade e de contato humano que impôs a todos nós, pelas mudanças nos hábitos de relacionamento entre as coisas e pessoas,  prefiro chamar de novo “anormalmente corriqueiro”, pois transformou em regra de conduta comportamentos antes excepcionais.

Um dos novos velhos hábitos pré-pandemia que já vinha sendo apontado como responsável por uma das maiores catástrofes ambientais anunciadas de todos os tempos é a utilização de materiais descartáveis, dos quais o maior vilão é, sem dúvida, o inderrotável plástico.

Estima-se que desde o começo da pandemia, o aumento do uso do plástico, sejam sacolas, visores protetivos, embalagens, etc., aumentou entre 250% a 300%, bem como o consumo de outros produtos derivados do petróleo.

Grande parte desse aumento se deve à demanda por produtos destinados a manter o problemático vírus afastado, incluindo máscaras, visores e luvas. ]

De acordo com uma previsão da empresa de pesquisas e consultoria californiana Grand View Research (https://www.grandviewresearch.com/), o tamanho do mercado global de máscaras faciais descartáveis ultrapassou o valor de US $ 74,90 bilhões no primeiro trimestre de 2020, e deve crescer a uma taxa composta de crescimento anual de cinquenta e três por cento.

Infelizmente, não é só. O aumento dos descartáveis por necessidade de proteção individual é apenas uma parte do gravíssimo problema.

Por imposição do confinamento, a pandemia do coronavírus acelerou as jornadas de transformação digital dos mais diversos setores no mundo todo. Empresas de todos os portes que não possuíam presença online se apressaram a se adaptar aos novos tempos.

Só no Brasil, houve aumento de quatrocentos por cento por mês no número de lojas que aderiram ao e-commerce durante a quarentena.

O comércio eletrônico brasileiro cresceu em níveis não vistos nos últimos vinte anos. Segundo pesquisa da Ebit/Nielsen, feita em parceria com a Elo, o faturamento com as vendas online subiu quarenta e sete por cento no primeiro semestre, totalizando 38,8 bilhões de reais. Ao todo, foram feitos quase cem milhões de pedidos entre janeiro e agosto de 2020.

Um alívio para o setor da moda e beleza depois de um período sombrio. De acordo com a revista eletrônica The Business of Fashion (www.businessoffashion.com), o comércio online desses produtos está ajudando fortemente na recuperação dessa indústria, e a projeção é de um crescimento três vezes superior ao do ano passado, representando um aumento de vinte por cento nas vendas só em 2020.

No entanto, se por um lado as vendas pela internet representam esperança de recuperação, não há dúvida que o planeta sairá perdendo, mais uma vez.

Praticamente todos os produtos que compramos pela internet vêm embalados em várias camadas de plástico compostas de polímeros da pior qualidade em termos de reciclagem, cuja função é proteger o produto contra danos no transporte.

E, porque a COVID-19 também causou uma vertiginosa queda no preço do petróleo, tornou-se ainda mais vantajoso continuar produzindo plásticos a partir dessa matéria-prima do que investir em pesquisas de materiais alternativos, biodegradáveis e sustentáveis.

Isso sem contar o aumento da pegada de carbono tanto para a produção dos plásticos, embalagens, máscaras, luvas, etc., como no transporte das mercadorias compradas, das devoluções e trocas, enfim, um impacto ambiental gigantesco.

Por outro lado, o temor de um mal maior, que é a contaminação pelo perigoso vírus, vai sobrepujando a urgência climática e a preocupação com preservação da biodiversidade, com a pandemia dos plásticos, microplásticos e outras nanopartículas que impregnam os rios e mares, agravada pelo descarte indevido de máscaras descartáveis, embalagens, e outros materiais de proteção.

Muito embora a proteção do planeta tenha como maior beneficiária a própria humanidade que já vem sentindo na pele o desequilíbrio climático e as nefastas consequências de anos de destruição da biodiversidade, o necessário imediatismo no combate à doença fez com que a sustentabilidade se tornasse uma questão menor no radar das autoridades, das empresas e das pessoas. E a conta da pandemia dos descartáveis ainda vai chegar.

Para saber mais: https://www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/2020/07/plastico-descartavel-covid-19-pandemia-reciclagem-saude-catadores-sacola

Ana Fábia R. de Oliveira F. Martins – Advogada, Especialista em Direito e Negócios Internacionais e Moda.